Foi muito mais do que um concerto. Foi olhar para o palco e estar ali a minha adolescência toda. Eu, que tenho a mania de associar a música a pessoas e a momentos concretos, vi um desfilar de gente diferente naquelas canções. A voz não chegou. Ficou lá toda, no Coliseu. Se mais tivesse, mais tinha gasto.
Ouvi Ornatos Violeta pela
primeira vez numa viagem Fátima – Porto, nos inícios do meu Secundário. Uma
amiga minha tinha no mp3 e mostrou-me, a dizer “Ouve esta banda que me
mostraram. É mesmo diferente do habitual mas é espetacular!”. Deixou-me com o “1
Beijo = mil”. Achei piada à música. Mas aquele “É fácil amar e ser amado / é só ter jeito para falar o que é melhor de
ouvir. / Mas o calor, que é puro, que é bom, / só acontece quando nada é claro”
deu-me um nó qualquer cá dentro. Aqueles versos nada “politicamente corretos”,
nada cor-de-rosinha, fizeram nascer uma grande dependência, que me acompanhou o
crescimento.
Ouvir Ornatos sempre foi muito
medicinal para mim. Ainda que o mundo estivesse a desabar, havia sempre um “Dia
Mau” para cantar a plenos pulmões. A energia ficava toda na música. Isso e os impossíveis
todos que construía na minha cabeça. Nunca paguei contas em raiva, porque
sempre estive avisada que às vezes “o amor é uma doença, quando nele julgamos
ver a nossa cura”.
Se os MP3s riscassem como os CD’s,
o “O Monstro Precisa de Amigos” teria cavado crateras no meu. Muitas viagens de
autocarro tiveram a Chaga como pano de fundo, e eu tinha que me conter muito
para não começar aos saltos e a cantar em plenos pulmões em frente às velhinhas
com quem partilhava transporte.
Ainda hoje, ouvir Ornatos é cura
para muitas chagas. Por isso, não há palavras para descrever o concerto a que
tive o privilégio de assistir ontem à noite.
É notável o que o tempo é capaz
de fazer. Os Ornatos fizeram o seu suposto último concerto no Hard Club, a 30
de novembro de 2002. Nessa altura, tinha eu 11 anos, devia andar ocupada a
ouvir D’ZRT e lixo do género. Entretanto, o tempo encarregou-se de me mostrar
aquela que havia de ser uma das minhas bandas de eleição. É a prova de que a
verdadeira música não vem com as modas, mas sim do talento genuíno.
Uns zés-ninguém, que terminaram a
sua carreira enquanto banda no Hard Club e se lançaram em novos projetos, foram
capazes de, passados dez anos, encher seis coliseus do dia para a noite. Foram
capazes de pôr uma plateia ao rubro, a cantar em coro todas as suas letras.
Foram capazes de encher de lágrimas muitos dos que, como eu, achavam que nunca
teriam oportunidade de os ver ao vivo.
Ornatos Violeta é uma geração
inteira. Quando, ontem à noite, me lembrava de olhar à minha volta, via gente
da minha idade, alguns mais velhos, a viver a sua juventude toda naquelas
músicas. Dançavam com o corpo todo, cantavam com a voz que tinham e com a que
não tinham. Quando tocavam temas inéditos, limitavam-se a absorver a voz
inconfundível de Manuel Cruz e as melodias que aqueles músicos gigantes
arrancavam dos instrumentos.
Foi, acima de tudo, um concerto
verdadeiro. (Quase) Nada ficou por tocar. A emoção dos elementos da banda era
quase palpável. Desfizeram-se em agradecimentos durante as três horas em que
estiveram a tocar. O Manuel Cruz não desiludiu nem por um segundo. O Peixe
surpreendeu, com aqueles solos brilhantes. Não sei como é que o baterista não
saiu de lá sem braços.
Durante aquelas horas, fez-se
verdadeira música no Coliseu. Daquela que vai direta, num canal qualquer, do
ouvido para o coração.
Com uma humildade que contrastou
com a grandiosidade da sua música, os músicos da mítica banda deram aos fãs uma
despedida arrebatadora, que com certeza não sairá das suas (nossas) memórias
nunca mais. Chegava a ser enternecedora a forma como manifestavam a sua
gratidão perante aquele público imparável.
Agora é a nossa vez de agradecer.
Obrigada, Ornatos Violeta, por fazerem música indestrutível. Obrigada por tanta
verdade e tanta poesia. Obrigada por serem portugueses, por terem inspirado
tanta gente e por provarem que o verdadeiro talento e o trabalho árduo não têm
outro destino senão o sucesso.
"E aparece assim, acendeu-se a luz, estão vivos outra vez".
E não é que estão mesmo?