quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Estão vivos outra vez



Foi muito mais do que um concerto. Foi olhar para o palco e estar ali a minha adolescência toda. Eu, que tenho a mania de associar a música a pessoas e a momentos concretos, vi um desfilar de gente diferente naquelas canções. A voz não chegou. Ficou lá toda, no Coliseu. Se mais tivesse, mais tinha gasto.

Ouvi Ornatos Violeta pela primeira vez numa viagem Fátima – Porto, nos inícios do meu Secundário. Uma amiga minha tinha no mp3 e mostrou-me, a dizer “Ouve esta banda que me mostraram. É mesmo diferente do habitual mas é espetacular!”. Deixou-me com o “1 Beijo = mil”. Achei piada à música. Mas aquele “É fácil amar e ser amado / é só ter jeito para falar o que é melhor de ouvir. / Mas o calor, que é puro, que é bom, / só acontece quando nada é claro” deu-me um nó qualquer cá dentro. Aqueles versos nada “politicamente corretos”, nada cor-de-rosinha, fizeram nascer uma grande dependência, que me acompanhou o crescimento.

Ouvir Ornatos sempre foi muito medicinal para mim. Ainda que o mundo estivesse a desabar, havia sempre um “Dia Mau” para cantar a plenos pulmões. A energia ficava toda na música. Isso e os impossíveis todos que construía na minha cabeça. Nunca paguei contas em raiva, porque sempre estive avisada que às vezes “o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura”.

Se os MP3s riscassem como os CD’s, o “O Monstro Precisa de Amigos” teria cavado crateras no meu. Muitas viagens de autocarro tiveram a Chaga como pano de fundo, e eu tinha que me conter muito para não começar aos saltos e a cantar em plenos pulmões em frente às velhinhas com quem partilhava transporte.

Ainda hoje, ouvir Ornatos é cura para muitas chagas. Por isso, não há palavras para descrever o concerto a que tive o privilégio de assistir ontem à noite.

É notável o que o tempo é capaz de fazer. Os Ornatos fizeram o seu suposto último concerto no Hard Club, a 30 de novembro de 2002. Nessa altura, tinha eu 11 anos, devia andar ocupada a ouvir D’ZRT e lixo do género. Entretanto, o tempo encarregou-se de me mostrar aquela que havia de ser uma das minhas bandas de eleição. É a prova de que a verdadeira música não vem com as modas, mas sim do talento genuíno.

Uns zés-ninguém, que terminaram a sua carreira enquanto banda no Hard Club e se lançaram em novos projetos, foram capazes de, passados dez anos, encher seis coliseus do dia para a noite. Foram capazes de pôr uma plateia ao rubro, a cantar em coro todas as suas letras. Foram capazes de encher de lágrimas muitos dos que, como eu, achavam que nunca teriam oportunidade de os ver ao vivo.

Ornatos Violeta é uma geração inteira. Quando, ontem à noite, me lembrava de olhar à minha volta, via gente da minha idade, alguns mais velhos, a viver a sua juventude toda naquelas músicas. Dançavam com o corpo todo, cantavam com a voz que tinham e com a que não tinham. Quando tocavam temas inéditos, limitavam-se a absorver a voz inconfundível de Manuel Cruz e as melodias que aqueles músicos gigantes arrancavam dos instrumentos.

Foi, acima de tudo, um concerto verdadeiro. (Quase) Nada ficou por tocar. A emoção dos elementos da banda era quase palpável. Desfizeram-se em agradecimentos durante as três horas em que estiveram a tocar. O Manuel Cruz não desiludiu nem por um segundo. O Peixe surpreendeu, com aqueles solos brilhantes. Não sei como é que o baterista não saiu de lá sem braços.

Durante aquelas horas, fez-se verdadeira música no Coliseu. Daquela que vai direta, num canal qualquer, do ouvido para o coração.

Com uma humildade que contrastou com a grandiosidade da sua música, os músicos da mítica banda deram aos fãs uma despedida arrebatadora, que com certeza não sairá das suas (nossas) memórias nunca mais. Chegava a ser enternecedora a forma como manifestavam a sua gratidão perante aquele público imparável.

Agora é a nossa vez de agradecer. Obrigada, Ornatos Violeta, por fazerem música indestrutível. Obrigada por tanta verdade e tanta poesia. Obrigada por serem portugueses, por terem inspirado tanta gente e por provarem que o verdadeiro talento e o trabalho árduo não têm outro destino senão o sucesso.

"E aparece assim, acendeu-se a luz, estão vivos outra vez".

E não é que estão mesmo?