Ontem não votei. Faço parte
daqueles 66% da população que não se manifestaram, deixaram tudo nas mãos de
uns poucos. Não me orgulho particularmente disso, porque gostava de, daqui a
uns anos, poder dizer aos meus netos “eu votei em todas as eleições desde os
meus 18 anos”! Gostava de poder dar o exemplo.
Mas ontem não deixei de ir às
urnas por a cama estar quentinha, por a praia me chamar ou por estar a gostar
dos programas da SIC e da TVI (que segundo ouvi dizer foram iguais aos de
sempre - igualmente maus). Não exerci o meu direito por o meu trabalho estar a
300 quilómetros da minha mesa de voto.
Dizem vocês: mas isso não é
desculpa, tens o voto antecipado! Pois tenho. Usei-o quando estava de Erasmus,
em Roma, dei-me ao trabalho de ir à embaixada uma semana antes, preencher não
sei quantos papéis e meter a minha cruzinha num envelope para fazer ouvir a
minha voz. Desta vez, não tinha uma embaixada do Porto em Lisboa para me
dirigir, e não estive no norte 10 a 5 dias antes do sufrágio para poder fazê-lo
na minha junta de freguesia. Nem tão pouco me lembrei dessa alternativa, para
ser sincera.
Perguntam vocês, ainda
escandalizados pela minha inércia: então e não ias ao Porto para poder
participar? Ainda ponderei, posso garantir. Mas depois, ao fazer contas,
percebi que ia gastar cerca de 40 euros para me meter no comboio, obrigar os
meus pais a irem-me buscar à estação, chegar, dar um beijo à família,
dirigir-me à escola de Gueifães, deixar lá uma cruzinha (ou um boletim vazio)
voltar a Campanhã, voltar a meter-me no comboio, chegar a Lisboa e ir
trabalhar.
Quando recapitulei todos esses
passos, dei-me conta que podia poupar estes quarenta euros para quando aqueles
que eu ajudaria a eleger mos quisessem tirar do bolso – e algo me diz que não vou
ter que esperar muito.
Não gosto daquele discurso do “são
todos tão maus que nem me vou dar ao trabalho de ir lá votar neles”. O voto é
um direito conquistado por nós. Um direito a colocar lá em cima quem nós
quisermos, ou um direito a mostrar que não gostamos de nenhum, e assim
tirar-lhes percentagem. É isso o voto em branco, um voto de protesto, que se
mistura com os outros todos e, pelo menos, mostra aos políticos que, antes de
cantarem vitória, têm que perceber quem votou realmente neles.
Mas para analisar os números destas
eleições, é preciso perceber que parte daquela enorme abstenção não é
constituída por preguiçosos, mas por gente que trabalha, que não teve a sorte
de ficar a viver no lugar onde nasceu. Já não se nasce, cresce, vive e morre na
mesma terra. São cada vez mais os deslocados, ou fora das nossas fronteiras ou
mesmo dentro. Que é feito da voz desses? Para quando o voto eletrónico, senão
para todos, pelo menos para quem apresente uma justificação válida?
Com a tecnologia avançadíssima
que temos, não conseguimos recolher o voto de quem não pode deslocar-se às
urnas de uma maneira mais prática?
Fica a questão de uma eleitora
que ainda não perdeu (totalmente) a esperança, que quer fazer-se ouvir, pelo
menos para impedir o fenómeno que hoje se assiste por toda a Europa, com os
partidos de extrema-direita e extrema-esquerda a registarem resultados
históricos. É o povo desesperadamente à procura de uma alternativa, ainda que
tenha obrigação de ter aprendido com a história que essa não pode ser nunca a
nossa alternativa.
O meu voto nestas eleições é desejar que, num futuro
próximo, o sufrágio seja mesmo um direito universal – até para aqueles que
tiveram que “sair da sua zona de conforto” para procurar uma vida um pouco mais
digna.