quinta-feira, 29 de maio de 2014

Aquela gratidão das quatro da manhã

Queres fechar os olhos, os músculos imploram que cedas à força da gravidade. Pedem que te deixes cair no sono com todo o peso do teu corpo. Mas o coração não deixa. Deixas-te ficar suspensa neste momento, não podes deixar escapar o que sentes.

Se estivesses com os teus, talvez o descrevesses assim: “sou uma sortuda do caralho”. E ninguém ia ficar a olhar para ti com desdém nem a discorrer internamente sobre a tua falta de chá. Há coisas que só se explicam sem chá nenhum, com um copo de cerveja na mão a dizer as asneiras todas que te vêm à cabeça. E mesmo assim parece que ainda não inventaram palavras suficientes para descrever.

Sabes que amanhã te vais arrepender disto tudo, de ser assim sincera com o mundo, sem exibir a muralha de pedra à tua volta que te faz parecer intocável, insensível, um verdadeiro calhau sem sentimentos. Mas é isto que acontece por volta das quatro da manhã, quando o sono está no pico e estás prestes a transformar-te em abóbora.

Que se lixe, com F maiúsculo. Quando sabes que vieste parar ao lugar certo, sem ter que fazer grandes piruetas, tudo o resto deixa de contar. Percebes que há anjinhos, ou estrelinhas, ou outro diminutivo paneleiro qualquer, que merecem um Obrigado. Pelo menos. Ou uma gratidão do tamanho do mundo, que nunca hás-de saber pagar convenientemente.

A gratidão não se paga em finos. Paga-se na luta diária por corresponder às expectativas. Paga-se a levar os sonhos a sério. É essa a responsabilidade maior, a de agradecer a cada dia mais um bocadinho.

A quem servir a carapuça, obrigada pelos desafios que todos os dias proporcionam.


Se amanhã desmentir tudo isto, é porque foi só o coração a falar. Às vezes também tem direito.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Sou abstencionista mas não queria ser

Ontem não votei. Faço parte daqueles 66% da população que não se manifestaram, deixaram tudo nas mãos de uns poucos. Não me orgulho particularmente disso, porque gostava de, daqui a uns anos, poder dizer aos meus netos “eu votei em todas as eleições desde os meus 18 anos”! Gostava de poder dar o exemplo.

Mas ontem não deixei de ir às urnas por a cama estar quentinha, por a praia me chamar ou por estar a gostar dos programas da SIC e da TVI (que segundo ouvi dizer foram iguais aos de sempre - igualmente maus). Não exerci o meu direito por o meu trabalho estar a 300 quilómetros da minha mesa de voto.

Dizem vocês: mas isso não é desculpa, tens o voto antecipado! Pois tenho. Usei-o quando estava de Erasmus, em Roma, dei-me ao trabalho de ir à embaixada uma semana antes, preencher não sei quantos papéis e meter a minha cruzinha num envelope para fazer ouvir a minha voz. Desta vez, não tinha uma embaixada do Porto em Lisboa para me dirigir, e não estive no norte 10 a 5 dias antes do sufrágio para poder fazê-lo na minha junta de freguesia. Nem tão pouco me lembrei dessa alternativa, para ser sincera.

Perguntam vocês, ainda escandalizados pela minha inércia: então e não ias ao Porto para poder participar? Ainda ponderei, posso garantir. Mas depois, ao fazer contas, percebi que ia gastar cerca de 40 euros para me meter no comboio, obrigar os meus pais a irem-me buscar à estação, chegar, dar um beijo à família, dirigir-me à escola de Gueifães, deixar lá uma cruzinha (ou um boletim vazio) voltar a Campanhã, voltar a meter-me no comboio, chegar a Lisboa e ir trabalhar.

Quando recapitulei todos esses passos, dei-me conta que podia poupar estes quarenta euros para quando aqueles que eu ajudaria a eleger mos quisessem tirar do bolso – e algo me diz que não vou ter que esperar muito.

Não gosto daquele discurso do “são todos tão maus que nem me vou dar ao trabalho de ir lá votar neles”. O voto é um direito conquistado por nós. Um direito a colocar lá em cima quem nós quisermos, ou um direito a mostrar que não gostamos de nenhum, e assim tirar-lhes percentagem. É isso o voto em branco, um voto de protesto, que se mistura com os outros todos e, pelo menos, mostra aos políticos que, antes de cantarem vitória, têm que perceber quem votou realmente neles.

Mas para analisar os números destas eleições, é preciso perceber que parte daquela enorme abstenção não é constituída por preguiçosos, mas por gente que trabalha, que não teve a sorte de ficar a viver no lugar onde nasceu. Já não se nasce, cresce, vive e morre na mesma terra. São cada vez mais os deslocados, ou fora das nossas fronteiras ou mesmo dentro. Que é feito da voz desses? Para quando o voto eletrónico, senão para todos, pelo menos para quem apresente uma justificação válida?

Com a tecnologia avançadíssima que temos, não conseguimos recolher o voto de quem não pode deslocar-se às urnas de uma maneira mais prática?

Fica a questão de uma eleitora que ainda não perdeu (totalmente) a esperança, que quer fazer-se ouvir, pelo menos para impedir o fenómeno que hoje se assiste por toda a Europa, com os partidos de extrema-direita e extrema-esquerda a registarem resultados históricos. É o povo desesperadamente à procura de uma alternativa, ainda que tenha obrigação de ter aprendido com a história que essa não pode ser nunca a nossa alternativa.
O meu voto nestas eleições é desejar que, num futuro próximo, o sufrágio seja mesmo um direito universal – até para aqueles que tiveram que “sair da sua zona de conforto” para procurar uma vida um pouco mais digna.

terça-feira, 22 de abril de 2014

"De ti levo esta saudade, levo esta capa velhinha"


Sempre que Maio se começa a aproximar, há um aperto no coração. Acontece assim desde o ano em que entrei na faculdade. No início, era a expectativa, por finalmente estar a fazer parte daquele mundo de capas negras e fitas no ar. Depois, foram os momentos inesquecíveis que ali vivi, e tive a certeza que ficariam para a vida. No fim, o aperto era ainda maior: aquele mundo começou a não ser meu, comecei a pedi-lo emprestado a outros. “Só mais uma semana para recordar esta magia”.

A semana da Queima das Fitas é aquela que me faz ter mais saudades da minha cidade, do meu Porto. Aquela onde todos saem do Facebook e vão para as ruas celebrar. Mesmo que não tenham grandes motivos para isso. Vão porque são estudantes, e esta é a semana de se estar feliz.

Esta é a semana em que se carrega no botão da nostalgia e se ouve aquele Fado que consegue cantar tudo o que está em revolução cá dentro. É a semana dos abraços apertados, das despedidas antecipadas. É também a semana dos excessos, é verdade, mas também é aquela que consegue reunir mais histórias para (não) contar aos netos.

A Queima lembra-me o quanto gosto da minha cidade. Faz-me recordar o primeiro ano de faculdade, quando eu dizia ser do Porto e morria de vergonha por me perder quase todos os dias. Depois, ao longo dos anos, comecei a adorar perder-me naquelas ruas que me levavam sempre a sítios fantásticos.

Aquela semana lembra-me também a entrada para o Orfeão, um mundo que nunca sonhei que mudasse tanto a minha vida. A primeira vez que pisei o palco do Coliseu, com a tuna que tanto admirava, e cantei para uma plateia cheia de cartolas coloridas.

Lembra-me um cortejo a cantar, a valsear, a encher-me de orgulho por fazer parte de tudo aquilo e por ter a oportunidade de o mostrar à minha cidade.

A Queima também me lembra, infelizmente, episódios mais infelizes, do conhecimento de tantos, que destruíram grande parte do significado que tinha. Mas hoje ponho de parte todas as críticas que poderia dedicar à sua (des)organização; hoje apetece-me optar pela nostalgia, pelas boas memórias.

Agora que vivo longe, a umas meras três horas de casa, mas ainda assim longe, sem poder dar um salto ao Piolho sempre que me apetece, o aperto é gigante. É do tamanho da constatação de que o tempo voa e não volta para trás. E isto é tudo um conjunto de grandes clichés, que quando são vividos ganham um significado diferente.

É o mundo a dizer-te que tens que dobrar a tua capa e enfiá-la no fundo do armário, porque o teu tempo foi curto mas já passou. E é querer dizer ao mundo que ele tem razão mas que custa como o caraças. Que a capa ainda tem muito para viver e que o tempo devia ter um bocadinho de calma a andar para a frente. E apercebes-te que aquilo que sentes está escrito e cantado por outros. E ficas a ouvir, a ver se o aperto vai embora.

“Ó Porto das pontes cidade
Dos Clérigos, da Sé Ribeirinha
De ti levo esta saudade
Levo esta capa velhinha”


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Acabei de ver Breaking Bad, o que faço agora à minha vida?

Spoiler alert: se estão a planear ver ou a começar a ver "Breaking Bad", não leiam isto. É muito melhor começar a ver sem fazer ideia de nada. Mas se quiserem muito, muito ler, não se preocupem porque não me estiquei muito - e ver "Breaking Bad" vale sempre a pena, até quando a alma não é assim muito grande.





Apetece-me escrever um texto lamechas sobre uma série. Isso mesmo. Acabei de ver o último episódio daquela que é, para muitos, a melhor série da história da televisão, e como infelizmente não tenho mais episódios para devorar e já poucas entrevistas restam no Youtube para ver, tinha que arranjar algo para fazer.

Eu não sei se “Breaking Bad” é a melhor série de todos os tempos. Já o li e reli em muitos lados, mas eu não vi todas as séries de todos os tempos para o poder afirmar. Nem de longe nem de perto. Ainda assim, posso afirmar que esta é a série mais bem construída, filmada e interpretada que alguma vez vi.

Ainda estou a tentar recompor-me. Eu nunca fui muito pessoa de ver séries porque era raro chegar ao fim e ficar com esta sensação, como quem acaba de ler um grande livro. Como quando, ao virar a última página, ao fechar o livro, a segurá-lo com as duas mãos, pensamos: “já não há vida para além disto”. E ficamos a tentar encerrar a história cá dentro, a calar a vontade de que ela não acabe e a recapitular tudo para a guardarmos na memória.

“Breaking Bad” tem tudo o que é preciso. Um grande argumento, um elenco fabuloso, um diretor de fotografia que merecia um altar. Mas acima de tudo, “Breaking Bad” é capaz de nos pôr em causa.

Todos estamos habituados aos bonzinhos que no final são recompensados pelas suas boas ações; aos vilões que acabam por morrer ou ganham o castigo que merecem. Vezes há, até, em que nos deixamos simpatizar com o mau da fita, sempre sem nos esquecermos que ele tem aquele rótulo de “mau”, mas lá no fundo, no fundo, até é boa pessoa.

Vince Gilligan, o criador da série, teve a coragem de fugir a todos estes padrões. Foi capaz de criar uma personagem que se assemelha em tudo ao comum dos mortais, um simples professor de química que ama a família mais que tudo, que se farta de fazer sacrifícios para lhes dar uma vida digna. Todos simpatizamos com a personagem, identificamo-nos com ela, e até percebemos a nobre decisão de começar a produzir droga para ajudar a família, quando descobre que está doente, prestes a morrer.

Mas depois, quase sem nos darmos conta, a história começa a explorar, a pouco e pouco, o lado mais negro daquele comum mortal. Afinal, o “bonzinho” vai-se tornando outra pessoa, e nós não deixamos de gostar, de simpatizar, de nos identificarmos com o mostro que se vai criando. Através de uma história densa, que nos envolve, o autor vai-nos provocando, fazendo-nos questionar o quão “bonzinhos” somos todos afinal.

Bryan Cranston, o ator que brilhantemente interpreta a personagem principal, “Walter White”, tem repetido isto nas várias entrevistas que tem dado acerca da série: “o Walt é um simples ser humano. Qualquer um de nós, dentro de determinadas circunstâncias, e com um certo nível de desespero, pode tornar-se perigoso”.

E ele tem toda a razão. “Breaking Bad” baralha-nos os esquemas todos porque é assim, uma história crua, sem falsos moralismos. E a forma como é contada, com atenção aos pormenores mas sem os explorar demasiado, tem tão pouco de previsível como de cansativa. Cada episódio deixa-nos sempre com vontade de ver mais, e mais, e mais.

A cereja no topo do bolo é que “Breaking Bad” não é um “one man show”. Além de Walter White, praticamente todas as personagens são complexas, vivem por si, acrescentam muito valor à série. Exemplo disso é o carismático Jesse Pinkman, de quem é impossível não gostar, o hilariante advogado Saul com os seus esquemas loucos e o ar de cachorrinho abandonado quando alguém lhe levanta a voz, Gus Fring, um dos vilões mais geniais que já vi, o obstinado Hank, com a sua missão de apanhar o “longínquo” Heisenberg, a paranoica Marie e os seus filmes, Skyler e a sua eterna divisão entre o que é certo e o melhor para aqueles que ama.

Agora que cheguei ao fim da história, apetecia-me ver mais. Mas até nisso o amigo Vince acertou em cheio: é sempre melhor que acabe e deixe saudades do que durar até todos já se terem cansado.

Eu, porque vou ter saudades, decidi escrever este texto. Agora é curar a ressaca e tentar descobrir uma série que consiga chegar aos calcanhares desta.

Sugestões aceitam-se.


sábado, 1 de fevereiro de 2014

A "Praxe" vista pelos olhos de uma Orfeonista cansada desta treta

(aviso já que este é um texto grande comó catano, porque estou cansada da visão superficial da coisa)

Tentei resistir a juntar-me ao caos mediático em que se tornou o assunto "Praxe". Juro que tentei. Já perdi a conta às notícias, reportagens, comentários, crónicas e debates que me entraram pelos olhos e ouvidos dentro nos últimos dias. De repente, num país onde raramente as pessoas querem saber, parece todos têm algo a dizer. Todos acordaram e têm uma opinião. Todos começaram a preocupar-se com as Universidades. Com o que se passa nos jardins das mesmas.

Eu acompanho tudo isto com um misto de sentimentos. Por um lado, alívio. Finalmente o país percebeu que, para não acontecerem tragédias, é preciso pensar, regular, impor limites. De repente, instalou-se uma reflexão nacional sobre o assunto. E ainda bem. Por outro lado, é com alguma surpresa e desânimo que acompanho a cobertura mediática dada ao assunto. De repente, parece que não há mais nada que preocupe os portugueses. Os órgãos de comunicação não olham a meios para saírem vitoriosos da luta das audiências. E quem perde somos nós e o próprio Jornalismo.

De tanto ler e ouvir falar do assunto, percebi que existem dois grupos muito distintos nesta discussão: o dos que acham que a praxe é uma palhaçada que devia acabar, e o dos que acham que a praxe é uma escola de vida e de integração fantástica, “fazedora” de amigos eternos.

Da forma como está a ser levado a cabo, este debate só tem um destino: o cansaço. Daqui a uns dias, Praxe será mesmo sinónimo de violência, porque o primeiro a levantar a questão poderá aparecer numa valeta com amnésia pouco seletiva e muitas nódoas negras.

Eu não sou capaz de me incluir em nenhum destes dois grupos. Acho que me situo algures entre os dois, porque, ao que parece, a minha vivência académica foi bem diferente do resto do mundo.

Passei pela praxe da minha faculdade, fui caloira, vesti uma t-shirt azul, cantei músicas parvas, enchi que me fartei e vesti o traje. Fiz grandes amizades, que depois consolidei “cá fora”. Apesar de tudo, nunca tive muita vontade de fazer “carreira” lá dentro, porque nunca vi grande propósito em tudo aquilo. Saí logo no segundo ano, mal cheguei de Erasmus, a achar que havia coisas bem mais interessantes para fazer à minha vida. E tinha toda a razão.

Foi só depois disso que comecei a viver verdadeiramente esse “espírito académico” de que tantos falam. Entrei para o Orfeão Universitário do Porto (OUP).

Descobrir o maravilhoso mundo das tradições académicas


Entrar para o OUP abriu-me muito os horizontes. Ou melhor, escancarou os meus horizontes. Lá, percebi que é possível viver as tradições académicas com inteligência, sem obediências cegas e com liberdade. Algo que nunca fiz na faculdade. Nunca me obrigaram a fazer parte da praxe, é verdade. Estive lá por vontade própria. Mas de certa forma, vivia numa pequena prisão, onde aguentava determinadas coisas para poder viver outras, que me agradavam.

O Orfeão apanhou-me de surpresa. Eu pensava que ia para um grupo académico, mais propriamente para uma tuna, e que ia ser praxada como na faculdade, cantar umas músicas e beber uns copos. Mas de repente dou por mim dentro de uma Instituição de Utilidade Pública, com corpos dirigentes, com estatutos próprios e com uma missão muito clara: não deixar morrer a cultura portuguesa e as tradições académicas do nosso país.

Parecia que tinham concentrado ali tudo o que me agradava no mundo académico, retirando os exageros, a obediência cega, a hierarquia rígida que me tinham ensinado da Praxe da faculdade. Ali, a praxe não era um fim em si mesma, mas um meio para atingir um fim muito maior: formar novos sócios para, no futuro, eles serem capazes de tomar as rédeas da instituição com a mesma garra e paixão que os mais velhos transmitiam.

Apesar de haver sempre esta preocupação de transmissão de conhecimentos, não havia barreiras entre novos e velhos. Havia um espírito de camaradagem entre todos, porque acima de tudo estava o Orfeão, e todos éramos orfeonistas. A praxe sempre foi um meio de motivação dos mais novos. Às vezes, era “violenta” ao ponto de pôr os caloiros a tocar não sei quantas músicas novas num novo instrumento em apenas uma semana. A única “violência” era essa, eram os desafios colocados, que não eram pequenos.

Rapidamente me deixei encantar por esta instituição, por tudo o que me deu, por aquilo que me ensinou. Hoje, sei muito mais sobre a cultura do meu país, e tenho orgulho dela, graças ao Orfeão. Afinal, além da tuna, havia um autêntico mundo a descobrir: coro clássico, música e danças etnográficas, fado, música popular brasileira, tudo isto dividido numa enorme quantidade de grupos, todos com uma qualidade impressionante.

Cresci musicalmente, cresci profissionalmente (no OUP também tive oportunidade de pôr em prática os conhecimentos adquiridos na Universidade) e cresci como pessoa. Aprendi que as verdadeiras “tradições académicas” se defendem assim, com dignidade, e não com comportamentos abusivos, jogos de poder e hierarquias que só prejudicam a Academia.

Descobrir o mundo sujo da “Praxe Académica”

Do contacto com os mais velhos, pessoas experientes nesta história das tradições académicas, aprendi muito. Percebi como, nos últimos anos, a praxe no Porto ganhou contornos animalescos. Como a sede de poder ganhou lugar também aqui, no mundo dos estudantes, tal como na política ou no mundo empresarial. Como uns poucos são capazes de manipular enormes massas de estudantes ingénuos que, como eu quando entrei para a faculdade, acham que a Praxe é uma mera brincadeira.

De repente, por decisão de meia dúzia, o Orfeão deixou de ser convidado para eventos que ele próprio, ao longo da História, criou. Porquê? Porque, como instituição séria, que representa a Universidade, se recusou a obedecer aos senhores que se apoderaram da Praxe. E os senhores que se apoderaram da Praxe têm e hão-de ter o poder das massas. Poder esse que lhes é reconhecido pela Federação Académica do Porto, que continua a colocar nas suas mãos a organização dos grandes eventos da Academia.

E vocês perguntam: então, se foram vocês que criaram grande parte dos eventos que hoje constituem a Queima das Fitas, se são vocês o grupo académico mais antigo da cidade do Porto, se têm uma História incomparável na Academia, porque é que a FAP continua a dar poder a “veteranos” com dezenas de matrículas que nem um curso conseguem acabar?

Porquê? Porque também para a Federação Académica, que supostamente representa todos os estudantes do Porto, mais do que a manutenção de tradições riquíssimas, interessa o número de algarismos que há na conta bancária, no fim da Queima das Fitas.

Um dia, estava eu a sair tranquilamente de mais uma noite de ensaios no Orfeão, com os amigos que lá fiz, e ao passar a porta da sede, deparei-me com uma fila enorme de gente trajada, que nos olhavam de ar ameaçador. Estava a chover, mas isso parecia não os demover da decisão de ali estar. Estavam a cumprir ordens. Para meu espanto, reconheci no meio deles algumas caras. Gente que foi praxada na mesma faculdade que eu. Ali estavam eles, sem saber porquê, a cercar a sede do OUP, a tentar fazer pressão para que o Presidente – sim, o Presidente, eleito em Assembleia Geral, de acordo com os estatutos – fosse falar com uns “veteranos” à Praça dos Leões.

Obviamente que presidente nenhum falou com veterano nenhum naquela noite. Resultado: o Orfeão foi “desconvidado” de todos os eventos da Queima das Fitas. Sim, aquela semana supostamente organizada pela Federação Académica do Porto.

O Orfeão sempre permaneceu muito discreto em toda esta “guerra”. É que, ao contrário de alguns, o Orfeão tem responsabilidades. Não anda simplesmente a brincar às praxes, anda a representar a Universidade há 101 anos um pouco por todo o mundo. Mas eu, como cidadã, como ex-estudante universitária livre de me expressar e cansada de toda esta treta que se discute há semanas, decidi escrever.

Sei que isto é só mais um entre os milhares de textos escritos sobre o tema nos últimos tempos. Mas se queremos tanto refletir sobre o assunto, então que se reflita a sério. Que se olhe a Praxe como ela é, como ela se tornou nos últimos anos. Um mundo onde vence quem consegue manipular mais gente. Um mundo que despreza a verdadeira História das nossas tradições académicas, e as transforma de acordo com os seus próprios interesses.

Não sendo meu objetivo fazer qualquer tipo de propaganda, fica o convite a todos os alunos da Universidade do Porto que gostam do mundo académico, de vestir o traje, de cantar Fado de Coimbra, de participar em tunas, de levar a nossa cultura além fronteiras. Apareçam no Orfeão, pensem pela vossa própria cabeça e não cedam aos boatos que hoje correm as faculdades. O Orfeão não é anti-praxe, o Orfeão é anti-aquela-praxe-ridícula-que-hoje-se-pratica. O Orfeão é anti-abusos, anti-humilhações, anti-manipulações da História, anti-jogos de dinheiro. O Orfeão é pela manutenção da tradição, é pela História, pela cultura, pelo crescimento pessoal, pelo espírito empreendedor. O Orfeão é pela Universidade, pela defesa dos valores da democracia e do respeito pelo outro.


E agora calo-me, porque o texto já vai longo e já pus o dedo na ferida durante muito tempo. Acredito que poucos me tenham acompanhado o raciocínio até aqui. Mas se conseguir chegar a meia dúzia de pessoas, e eles derem meia dúzia de bons orfeonistas, isto já valeu a pena.