(aviso já que este é um texto grande comó catano, porque estou cansada da visão superficial da coisa)
Tentei resistir a juntar-me ao
caos mediático em que se tornou o assunto "Praxe". Juro que tentei. Já
perdi a conta às notícias, reportagens, comentários, crónicas e debates que me
entraram pelos olhos e ouvidos dentro nos últimos dias. De repente, num país
onde raramente as pessoas querem saber, parece todos têm algo a dizer. Todos
acordaram e têm uma opinião. Todos começaram a preocupar-se com as
Universidades. Com o que se passa nos jardins das mesmas.
Eu acompanho tudo isto com um
misto de sentimentos. Por um lado, alívio. Finalmente o país percebeu que, para
não acontecerem tragédias, é preciso pensar, regular, impor limites. De
repente, instalou-se uma reflexão nacional sobre o assunto. E ainda bem. Por
outro lado, é com alguma surpresa e desânimo que acompanho a cobertura
mediática dada ao assunto. De repente, parece que não há mais nada que preocupe
os portugueses. Os órgãos de comunicação não olham a meios para saírem
vitoriosos da luta das audiências. E quem perde somos nós e o próprio Jornalismo.
De tanto ler e ouvir falar do
assunto, percebi que existem dois grupos muito distintos nesta discussão: o dos
que acham que a praxe é uma palhaçada que devia acabar, e o dos que acham que a
praxe é uma escola de vida e de integração fantástica, “fazedora” de amigos
eternos.
Da forma como está a ser levado a
cabo, este debate só tem um destino: o cansaço. Daqui a uns dias, Praxe será
mesmo sinónimo de violência, porque o primeiro a levantar a questão poderá
aparecer numa valeta com amnésia pouco seletiva e muitas nódoas negras.
Eu não sou capaz de me incluir em
nenhum destes dois grupos. Acho que me situo algures entre os dois, porque, ao
que parece, a minha vivência académica foi bem diferente do resto do mundo.
Passei pela praxe da minha
faculdade, fui caloira, vesti uma t-shirt azul, cantei músicas parvas, enchi
que me fartei e vesti o traje. Fiz grandes amizades, que depois consolidei “cá
fora”. Apesar de tudo, nunca tive muita vontade de fazer “carreira” lá dentro,
porque nunca vi grande propósito em tudo aquilo. Saí logo no segundo ano, mal
cheguei de Erasmus, a achar que havia coisas bem mais interessantes para fazer
à minha vida. E tinha toda a razão.
Foi só depois disso que comecei a
viver verdadeiramente esse “espírito académico” de que tantos falam. Entrei
para o Orfeão Universitário do Porto (OUP).
Descobrir o maravilhoso mundo das tradições académicas
Entrar para o OUP abriu-me muito
os horizontes. Ou melhor, escancarou os meus horizontes. Lá, percebi que é
possível viver as tradições académicas com inteligência, sem obediências cegas
e com liberdade. Algo que nunca fiz na faculdade. Nunca me obrigaram a fazer
parte da praxe, é verdade. Estive lá por vontade própria. Mas de certa forma,
vivia numa pequena prisão, onde aguentava determinadas coisas para poder viver
outras, que me agradavam.
O Orfeão apanhou-me de surpresa.
Eu pensava que ia para um grupo académico, mais propriamente para uma tuna, e
que ia ser praxada como na faculdade, cantar umas músicas e beber uns copos.
Mas de repente dou por mim dentro de uma Instituição de Utilidade Pública, com
corpos dirigentes, com estatutos próprios e com uma missão muito clara: não
deixar morrer a cultura portuguesa e as tradições académicas do nosso país.
Parecia que tinham concentrado
ali tudo o que me agradava no mundo académico, retirando os exageros, a
obediência cega, a hierarquia rígida que me tinham ensinado da Praxe da
faculdade. Ali, a praxe não era um fim em si mesma, mas um meio para atingir um
fim muito maior: formar novos sócios para, no futuro, eles serem capazes de
tomar as rédeas da instituição com a mesma garra e paixão que os mais velhos
transmitiam.
Apesar de haver sempre esta
preocupação de transmissão de conhecimentos, não havia barreiras entre novos e
velhos. Havia um espírito de camaradagem entre todos, porque acima de tudo
estava o Orfeão, e todos éramos orfeonistas. A praxe sempre foi um meio de
motivação dos mais novos. Às vezes, era “violenta” ao ponto de pôr os caloiros
a tocar não sei quantas músicas novas num novo instrumento em apenas uma
semana. A única “violência” era essa, eram os desafios colocados, que não eram
pequenos.
Rapidamente me deixei encantar
por esta instituição, por tudo o que me deu, por aquilo que me ensinou. Hoje,
sei muito mais sobre a cultura do meu país, e tenho orgulho dela, graças ao Orfeão.
Afinal, além da tuna, havia um autêntico mundo a descobrir: coro clássico,
música e danças etnográficas, fado, música popular brasileira, tudo isto
dividido numa enorme quantidade de grupos, todos com uma qualidade
impressionante.
Cresci musicalmente, cresci
profissionalmente (no OUP também tive oportunidade de pôr em prática os
conhecimentos adquiridos na Universidade) e cresci como pessoa. Aprendi que as
verdadeiras “tradições académicas” se defendem assim, com dignidade, e não com comportamentos
abusivos, jogos de poder e hierarquias que só prejudicam a Academia.
Descobrir o mundo sujo da “Praxe Académica”
Do contacto com os mais velhos,
pessoas experientes nesta história das tradições académicas, aprendi muito.
Percebi como, nos últimos anos, a praxe no Porto ganhou contornos animalescos.
Como a sede de poder ganhou lugar também aqui, no mundo dos estudantes, tal
como na política ou no mundo empresarial. Como uns poucos são capazes de
manipular enormes massas de estudantes ingénuos que, como eu quando entrei para
a faculdade, acham que a Praxe é uma mera brincadeira.
De repente, por decisão de meia
dúzia, o Orfeão deixou de ser convidado para eventos que ele próprio, ao longo
da História, criou. Porquê? Porque, como instituição séria, que representa a
Universidade, se recusou a obedecer aos senhores que se apoderaram da Praxe. E
os senhores que se apoderaram da Praxe têm e hão-de ter o poder das massas.
Poder esse que lhes é reconhecido pela Federação Académica do Porto, que continua
a colocar nas suas mãos a organização dos grandes eventos da Academia.
E vocês perguntam: então, se
foram vocês que criaram grande parte dos eventos que hoje constituem a Queima
das Fitas, se são vocês o grupo académico mais antigo da cidade do Porto, se
têm uma História incomparável na Academia, porque é que a FAP continua a dar
poder a “veteranos” com dezenas de matrículas que nem um curso conseguem
acabar?
Porquê? Porque também para a
Federação Académica, que supostamente representa todos os estudantes do Porto,
mais do que a manutenção de tradições riquíssimas, interessa o número de
algarismos que há na conta bancária, no fim da Queima das Fitas.
Um dia, estava eu a sair
tranquilamente de mais uma noite de ensaios no Orfeão, com os amigos que lá
fiz, e ao passar a porta da sede, deparei-me com uma fila enorme de gente
trajada, que nos olhavam de ar ameaçador. Estava a chover, mas isso parecia não
os demover da decisão de ali estar. Estavam a cumprir ordens. Para meu espanto,
reconheci no meio deles algumas caras. Gente que foi praxada na mesma faculdade
que eu. Ali estavam eles, sem saber porquê, a cercar a sede do OUP, a tentar
fazer pressão para que o Presidente – sim, o Presidente, eleito em Assembleia
Geral, de acordo com os estatutos – fosse falar com uns “veteranos” à Praça dos
Leões.
Obviamente que presidente nenhum
falou com veterano nenhum naquela noite. Resultado: o Orfeão foi “desconvidado”
de todos os eventos da Queima das Fitas. Sim, aquela semana supostamente
organizada pela Federação Académica do Porto.
O Orfeão sempre permaneceu muito
discreto em toda esta “guerra”. É que, ao contrário de alguns, o Orfeão tem
responsabilidades. Não anda simplesmente a brincar às praxes, anda a
representar a Universidade há 101 anos um pouco por todo o mundo. Mas eu, como
cidadã, como ex-estudante universitária livre de me expressar e cansada de toda
esta treta que se discute há semanas, decidi escrever.
Sei que isto é só mais um entre
os milhares de textos escritos sobre o tema nos últimos tempos. Mas se queremos
tanto refletir sobre o assunto, então que se reflita a sério. Que se olhe a
Praxe como ela é, como ela se tornou nos últimos anos. Um mundo onde vence quem
consegue manipular mais gente. Um mundo que despreza a verdadeira História das
nossas tradições académicas, e as transforma de acordo com os seus próprios
interesses.
Não sendo meu objetivo fazer
qualquer tipo de propaganda, fica o convite a todos os alunos da Universidade
do Porto que gostam do mundo académico, de vestir o traje, de cantar Fado de
Coimbra, de participar em tunas, de levar a nossa cultura além fronteiras.
Apareçam no Orfeão, pensem pela vossa própria cabeça e não cedam aos boatos que
hoje correm as faculdades. O Orfeão não é anti-praxe, o Orfeão é
anti-aquela-praxe-ridícula-que-hoje-se-pratica. O Orfeão é anti-abusos, anti-humilhações,
anti-manipulações da História, anti-jogos de dinheiro. O Orfeão é pela
manutenção da tradição, é pela História, pela cultura, pelo crescimento
pessoal, pelo espírito empreendedor. O Orfeão é pela Universidade, pela defesa
dos valores da democracia e do respeito pelo outro.
E agora calo-me, porque o texto
já vai longo e já pus o dedo na ferida durante muito tempo. Acredito que poucos
me tenham acompanhado o raciocínio até aqui. Mas se conseguir chegar a meia
dúzia de pessoas, e eles derem meia dúzia de bons orfeonistas, isto já valeu a
pena.