Sempre que Maio se começa a aproximar, há um aperto no coração. Acontece assim desde o ano em que entrei na faculdade. No início, era a expectativa, por finalmente estar a fazer parte daquele mundo de capas negras e fitas no ar. Depois, foram os momentos inesquecíveis que ali vivi, e tive a certeza que ficariam para a vida. No fim, o aperto era ainda maior: aquele mundo começou a não ser meu, comecei a pedi-lo emprestado a outros. “Só mais uma semana para recordar esta magia”.
A semana da Queima das Fitas é
aquela que me faz ter mais saudades da minha cidade, do meu Porto. Aquela onde
todos saem do Facebook e vão para as ruas celebrar. Mesmo que não tenham
grandes motivos para isso. Vão porque são estudantes, e esta é a semana de se
estar feliz.
Esta é a semana em que se carrega
no botão da nostalgia e se ouve aquele Fado que consegue cantar tudo o que está
em revolução cá dentro. É a semana dos abraços apertados, das despedidas
antecipadas. É também a semana dos excessos, é verdade, mas também é aquela que
consegue reunir mais histórias para (não) contar aos netos.
A Queima lembra-me o quanto gosto
da minha cidade. Faz-me recordar o primeiro ano de faculdade, quando eu dizia ser
do Porto e morria de vergonha por me perder quase todos os dias. Depois, ao longo
dos anos, comecei a adorar perder-me naquelas ruas que me levavam sempre a
sítios fantásticos.
Aquela semana lembra-me também a
entrada para o Orfeão, um mundo que nunca sonhei que mudasse tanto a minha
vida. A primeira vez que pisei o palco do Coliseu, com a tuna que tanto
admirava, e cantei para uma plateia cheia de cartolas coloridas.
Lembra-me um cortejo a cantar, a valsear,
a encher-me de orgulho por fazer parte de tudo aquilo e por ter a oportunidade
de o mostrar à minha cidade.
A Queima também me lembra,
infelizmente, episódios mais infelizes, do conhecimento de tantos, que destruíram
grande parte do significado que tinha. Mas hoje ponho de parte todas as
críticas que poderia dedicar à sua (des)organização; hoje apetece-me optar pela
nostalgia, pelas boas memórias.
Agora que vivo longe, a umas
meras três horas de casa, mas ainda assim longe, sem poder dar um salto ao Piolho
sempre que me apetece, o aperto é gigante. É do tamanho da constatação de que o
tempo voa e não volta para trás. E isto é tudo um conjunto de grandes clichés,
que quando são vividos ganham um significado diferente.
É o mundo a dizer-te que tens que
dobrar a tua capa e enfiá-la no fundo do armário, porque o teu tempo foi curto
mas já passou. E é querer dizer ao mundo que ele tem razão mas que custa como o
caraças. Que a capa ainda tem muito para viver e que o tempo devia ter um
bocadinho de calma a andar para a frente. E apercebes-te que aquilo que sentes
está escrito e cantado por outros. E ficas a ouvir, a ver se o aperto vai
embora.
“Ó Porto das pontes cidade
Dos Clérigos, da Sé Ribeirinha
De ti levo esta saudade
Levo esta capa velhinha”
