terça-feira, 22 de abril de 2014

"De ti levo esta saudade, levo esta capa velhinha"


Sempre que Maio se começa a aproximar, há um aperto no coração. Acontece assim desde o ano em que entrei na faculdade. No início, era a expectativa, por finalmente estar a fazer parte daquele mundo de capas negras e fitas no ar. Depois, foram os momentos inesquecíveis que ali vivi, e tive a certeza que ficariam para a vida. No fim, o aperto era ainda maior: aquele mundo começou a não ser meu, comecei a pedi-lo emprestado a outros. “Só mais uma semana para recordar esta magia”.

A semana da Queima das Fitas é aquela que me faz ter mais saudades da minha cidade, do meu Porto. Aquela onde todos saem do Facebook e vão para as ruas celebrar. Mesmo que não tenham grandes motivos para isso. Vão porque são estudantes, e esta é a semana de se estar feliz.

Esta é a semana em que se carrega no botão da nostalgia e se ouve aquele Fado que consegue cantar tudo o que está em revolução cá dentro. É a semana dos abraços apertados, das despedidas antecipadas. É também a semana dos excessos, é verdade, mas também é aquela que consegue reunir mais histórias para (não) contar aos netos.

A Queima lembra-me o quanto gosto da minha cidade. Faz-me recordar o primeiro ano de faculdade, quando eu dizia ser do Porto e morria de vergonha por me perder quase todos os dias. Depois, ao longo dos anos, comecei a adorar perder-me naquelas ruas que me levavam sempre a sítios fantásticos.

Aquela semana lembra-me também a entrada para o Orfeão, um mundo que nunca sonhei que mudasse tanto a minha vida. A primeira vez que pisei o palco do Coliseu, com a tuna que tanto admirava, e cantei para uma plateia cheia de cartolas coloridas.

Lembra-me um cortejo a cantar, a valsear, a encher-me de orgulho por fazer parte de tudo aquilo e por ter a oportunidade de o mostrar à minha cidade.

A Queima também me lembra, infelizmente, episódios mais infelizes, do conhecimento de tantos, que destruíram grande parte do significado que tinha. Mas hoje ponho de parte todas as críticas que poderia dedicar à sua (des)organização; hoje apetece-me optar pela nostalgia, pelas boas memórias.

Agora que vivo longe, a umas meras três horas de casa, mas ainda assim longe, sem poder dar um salto ao Piolho sempre que me apetece, o aperto é gigante. É do tamanho da constatação de que o tempo voa e não volta para trás. E isto é tudo um conjunto de grandes clichés, que quando são vividos ganham um significado diferente.

É o mundo a dizer-te que tens que dobrar a tua capa e enfiá-la no fundo do armário, porque o teu tempo foi curto mas já passou. E é querer dizer ao mundo que ele tem razão mas que custa como o caraças. Que a capa ainda tem muito para viver e que o tempo devia ter um bocadinho de calma a andar para a frente. E apercebes-te que aquilo que sentes está escrito e cantado por outros. E ficas a ouvir, a ver se o aperto vai embora.

“Ó Porto das pontes cidade
Dos Clérigos, da Sé Ribeirinha
De ti levo esta saudade
Levo esta capa velhinha”