O mal das redes sociais é
esgotarem muito rapidamente assuntos dignos de serem discutidos seriamente.
Ainda ontem, Lorenzo Carvalho era praticamente chicoteado em direto, no Jornal
das 8, pela pivô Judite de Sousa, e hoje já estamos todos cansados do assunto.
Normal.
Ainda assim, não resisto a meter
a minha colherada, porque me preocupa seriamente o estado do jornalismo em
Portugal e porque, como cidadã, momentos televisivos destes dão-me para pensar.
Podia-me dar para pior.
Para mim, a grande questão em
todo este assunto diz respeito não à Judite, não ao Lorenzo, mas à própria TVI.
Eu sei que estamos em plena “silly season”, que está tudo de papo para o ar no
Algarve e que o que está a dar são as revistas cor-de-rosa. Notícias propriamente
ditas, só talvez os incêndios que vão assolando o país e a mesma “crise” de
sempre, que já ninguém aguenta.
Ainda assim, não cabe na minha
humilde cabeça a razão pela qual decidiram convidar, para o Jornal das 8, uma
figura como a de Lorenzo Carvalho. Qual o critério de noticiabilidade disto? O
que é que ele fez de especial, que testemunho tem a dar aos portugueses? Tem
uns milhões a mais na conta bancária? Então, porque razão ainda não sentaram na
mesma cadeira o Cristiano Ronaldo, com o mesmo tipo de abordagem? Ou tantos
outros com o mesmo estilo de vida?
Outra coisa que dá para pensar é
a forma “brilhante” como foi conduzida a entrevista pela pivô de renome Judite
de Sousa. A jornalista “justiceira” que, do alto da sua moral, decide atacar
brutalmente o “pobre” Lorenzo, acusando-o de não contribuir para a diminuição
do desemprego, de ser fútil e de carregar milhões no corpo. Rebaixa-se, ainda,
ao ponto de perguntar se os seus familiares foram assassinados (pergunta
legítima, afinal nos filmes todos os gajos com dinheiro são assassinados) e de
o apelidar de “excêntrico” por ter o corpo tatuado.
Um discurso preconceituoso, moralista,
pouco informado e vergonhoso que se reuniu naqueles minutos de televisão. Em
oposição estava o jovem bilionário que, com um discurso humilde e bastante
calmo, dada a situação, ficou claramente por cima.
A primeira coisa que passa pela
cabeça de qualquer ser humano ao assistir a isto é a pergunta “mas quem és tu
para lhe apontar o dedo”? Uma jornalista que ganha 27 mil euros por mês e faz
tanto ou menos que os restantes colegas de redação, que recebem razoavelmente
menos?
Que tem feito a Judite pela
diminuição do desemprego em Portugal? Alguma vez abdicou do seu gordo salário
para admitir mais (bons) jornalistas na estação onde trabalha? Como teve
coragem de se exibir para as revistas cor-de-rosa no Algarve, quando podia ter
ficado em casa, utilizando o dinheiro das férias para dar de comer a quem tem
fome? Como dizia alguém que sabia alguma coisa da vida, “quem nunca pecou que
atire a primeira pedra”.
E depois, num nível de pensamento
mais profundo, esta entrevista faz-me questionar muita coisa. Até onde vai a
nossa ganância? O que é que nos diferencia uns dos outros? É o dinheiro? É a
fama? Que sociedade é esta que a uns dá a oportunidade de fazer festas de anos
de 300 mil euros e a outros nega um pedaço de pão todos os dias?
Na minha curta existência, já
tive oportunidade de perceber a grande riqueza de se ser pobre, e confesso:
pessoas como o Lorenzo, como a Judite, como tantos outros neste mundo podre
fazem-me muita confusão. Não é inveja, não. Espero manter sempre muito presente
o meu objetivo de nunca na vida ser rica.
É que o dinheiro a mais deturpa a
nossa noção de realidade, retira-nos criatividade e o sabor agridoce da luta
constante pelos nossos objetivos. Como li, há dias, num livro que reunia os
discursos do chefe de uma tribo da Nova Zelândia no início do século XX,
transformamos o dinheiro no nosso Deus. Eles, os indígenas “pouco esclarecidos”,
viviam numa perfeita partilha, certos que tudo lhes tinha sido dado de igual
forma. Nós, os donos do conhecimento, criamos o dinheiro e decidimos que a sua
distribuição seria feita com base no mérito (ou, muitas vezes, com base na
máxima “quem mais rouba é quem mais tem”).
No caminho, esquecemo-nos que
somos iguais, que somos seres humanos e que a partilha nos faz felizes. “Recebemos
na medida em que damos”, ou melhor, “quando (nos) damos, acabamos sempre
surpreendidos porque recebemos sempre a dobrar ou a triplicar”.
Mas isto dava pano para mangas.
Certa de que já há muitos a apelidar-me mentalmente de comunista, o melhor é
ficar por aqui. Não sou comunista, não. Ou talvez uma comunista de ideias, que
conhece demasiado a ganância humana para acreditar que é possível
implementá-lo.
Agradeço à Judite por, com o
seu mau exemplo, ter posto Portugal a pensar e a discutir assuntos sérios como
este. Entretanto, espero que esta onda de
indignação a ponha, também a ela, a pensar. No limite, se quiser dividir o seu salário
e criar com ele novos postos de trabalho, candidato-me à vaga.