sábado, 17 de agosto de 2013

Da Judite, do Lorenzo e deste mundo podre em que vivemos

O mal das redes sociais é esgotarem muito rapidamente assuntos dignos de serem discutidos seriamente. Ainda ontem, Lorenzo Carvalho era praticamente chicoteado em direto, no Jornal das 8, pela pivô Judite de Sousa, e hoje já estamos todos cansados do assunto. Normal.

Ainda assim, não resisto a meter a minha colherada, porque me preocupa seriamente o estado do jornalismo em Portugal e porque, como cidadã, momentos televisivos destes dão-me para pensar. Podia-me dar para pior.

Para mim, a grande questão em todo este assunto diz respeito não à Judite, não ao Lorenzo, mas à própria TVI. Eu sei que estamos em plena “silly season”, que está tudo de papo para o ar no Algarve e que o que está a dar são as revistas cor-de-rosa. Notícias propriamente ditas, só talvez os incêndios que vão assolando o país e a mesma “crise” de sempre, que já ninguém aguenta.

Ainda assim, não cabe na minha humilde cabeça a razão pela qual decidiram convidar, para o Jornal das 8, uma figura como a de Lorenzo Carvalho. Qual o critério de noticiabilidade disto? O que é que ele fez de especial, que testemunho tem a dar aos portugueses? Tem uns milhões a mais na conta bancária? Então, porque razão ainda não sentaram na mesma cadeira o Cristiano Ronaldo, com o mesmo tipo de abordagem? Ou tantos outros com o mesmo estilo de vida?

Outra coisa que dá para pensar é a forma “brilhante” como foi conduzida a entrevista pela pivô de renome Judite de Sousa. A jornalista “justiceira” que, do alto da sua moral, decide atacar brutalmente o “pobre” Lorenzo, acusando-o de não contribuir para a diminuição do desemprego, de ser fútil e de carregar milhões no corpo. Rebaixa-se, ainda, ao ponto de perguntar se os seus familiares foram assassinados (pergunta legítima, afinal nos filmes todos os gajos com dinheiro são assassinados) e de o apelidar de “excêntrico” por ter o corpo tatuado.

Um discurso preconceituoso, moralista, pouco informado e vergonhoso que se reuniu naqueles minutos de televisão. Em oposição estava o jovem bilionário que, com um discurso humilde e bastante calmo, dada a situação, ficou claramente por cima.

A primeira coisa que passa pela cabeça de qualquer ser humano ao assistir a isto é a pergunta “mas quem és tu para lhe apontar o dedo”? Uma jornalista que ganha 27 mil euros por mês e faz tanto ou menos que os restantes colegas de redação, que recebem razoavelmente menos?

Que tem feito a Judite pela diminuição do desemprego em Portugal? Alguma vez abdicou do seu gordo salário para admitir mais (bons) jornalistas na estação onde trabalha? Como teve coragem de se exibir para as revistas cor-de-rosa no Algarve, quando podia ter ficado em casa, utilizando o dinheiro das férias para dar de comer a quem tem fome? Como dizia alguém que sabia alguma coisa da vida, “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”.

E depois, num nível de pensamento mais profundo, esta entrevista faz-me questionar muita coisa. Até onde vai a nossa ganância? O que é que nos diferencia uns dos outros? É o dinheiro? É a fama? Que sociedade é esta que a uns dá a oportunidade de fazer festas de anos de 300 mil euros e a outros nega um pedaço de pão todos os dias?

Na minha curta existência, já tive oportunidade de perceber a grande riqueza de se ser pobre, e confesso: pessoas como o Lorenzo, como a Judite, como tantos outros neste mundo podre fazem-me muita confusão. Não é inveja, não. Espero manter sempre muito presente o meu objetivo de nunca na vida ser rica.

É que o dinheiro a mais deturpa a nossa noção de realidade, retira-nos criatividade e o sabor agridoce da luta constante pelos nossos objetivos. Como li, há dias, num livro que reunia os discursos do chefe de uma tribo da Nova Zelândia no início do século XX, transformamos o dinheiro no nosso Deus. Eles, os indígenas “pouco esclarecidos”, viviam numa perfeita partilha, certos que tudo lhes tinha sido dado de igual forma. Nós, os donos do conhecimento, criamos o dinheiro e decidimos que a sua distribuição seria feita com base no mérito (ou, muitas vezes, com base na máxima “quem mais rouba é quem mais tem”).

No caminho, esquecemo-nos que somos iguais, que somos seres humanos e que a partilha nos faz felizes. “Recebemos na medida em que damos”, ou melhor, “quando (nos) damos, acabamos sempre surpreendidos porque recebemos sempre a dobrar ou a triplicar”.

Mas isto dava pano para mangas. Certa de que já há muitos a apelidar-me mentalmente de comunista, o melhor é ficar por aqui. Não sou comunista, não. Ou talvez uma comunista de ideias, que conhece demasiado a ganância humana para acreditar que é possível implementá-lo.


Agradeço à Judite por, com o seu mau exemplo, ter posto Portugal a pensar e a discutir assuntos sérios como este. Entretanto, espero que esta onda de indignação a ponha, também a ela, a pensar. No limite, se quiser dividir o seu salário e criar com ele novos postos de trabalho, candidato-me à vaga.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

"Jornalismo" de "verdade"


Passamos anos da nossa vida a estudar coisas que nos fascinam. Um jornalismo que procura a verdade acima de todas as coisas, que ouve o outro lado, que respeita a integridade de cada ser humano e, mais do que isso, a defende. Debruçamo-nos sobre a ética, a deontologia, o que deve ser e o que não podemos deixar que aconteça. Falamos sobre o papel do jornalista na democracia, do “quarto poder” que questiona todos os outros, da voz do povo. Sentimo-nos autênticos profetas deste mundo corrompido pelo capitalismo, pelos lobbies partidários e pelos interesses particulares. Connosco é que vai ser. Vamos ser sempre partidários da verdade e da imparcialidade e não iremos nunca contra aquilo em que firmemente acreditamos.

Fazemos discursos bonitos como ouvimos da boca dos nossos professores, grandes doutores nisto e naquilo. Aquilo sabe-nos bem, diz-nos algo, faz-nos sentir que temos um papel. Ansiamos o dia em que nos hão-de dar uma oportunidade de colocar tudo isto em prática.

E de repente caímos no “mercado” de trabalho. De repente temos um salário a cair certo na nossa conta, pura e simplesmente para fazermos jornalismo. E percebemos que não há nada mais errado que entrar no “mercado” para fazer aquilo que é o nosso sonho. Porque é nisso mesmo que se transforma, num “mercado” onde ganha quem tiver mais dinheiro, e tem mais dinheiro quem é capaz de calcar, um por um, todos os princípios que nos ensinaram na Universidade.

De repente cai-nos à frente a realidade, crua e dura: não se olha a meios para chegar aos fins, que acabam totalmente distorcidos. É-se comprado pelos interesses políticos, pelos interesses económicos, religiosos. O jornalismo serve para arrancar uns trocos deste e daquele, que são uns grandes benfeitores porque apostam na “verdade”.

“Jornalistas” que se apoderam do trabalho dos outros sem hesitar um segundo. Que se deixam comprar sem sequer se preocuparem em disfarçar. Que fazem jogo duplo para enganar tudo e todos, e atingir assim o “sucesso” e a “credibilidade”. “Jornalistas” que se gabam de calcar a dignidade do outro para vender capas, que manipulam a informação de uma forma flagrante, que não nutrem uma ponta de respeito por ninguém – nem por eles mesmos.

Tachos e panelas para o amigo daqui, o primo de acolá, o tio dali. O profissionalismo, a isenção, a qualidade de trabalho são totalmente esquecidas em favor das cunhas, das “amizades”, dos jeitinhos.
E no meio disto tudo chamam-nos jornalistas. O título que sempre ambicionamos está lá, colado a nós. Mas de repente não nos identificamos. Se é isto o jornalismo, então talvez não valha a pena. Se a solução é fechar a boca e abanar a cabeça só porque a conta está lá, recheada, ao final do mês, então não era este o sonho.

Ou talvez tenha que esperar só mais um pouco que isto melhore. Talvez deva ter esperança porque um dia havemos de ter um espaço de manobra mais largo para exercemos o verdadeiro jornalismo. Talvez seja só engolir alguns sapos por agora.

Até quando?