quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Serviço Público de Televisão?


Para muitos será só mais um programa de pimbalhada. Para quem é do Norte e está ligado à arte e à cultura de alguma forma, é uma rampa de lançamento.

Frequento os estúdios da RTP Porto, com os coros de que faço parte, desde os meus seis anos. Passei pelo estúdio antigo, quando o cenário da Praça da Alegria era uma esplanada igual às da Ribeira e o Hélder Reis era o “moço” que servia cafés e águas. Passei pela fase em que a Sónia Araújo era a sombra do Manuel Luís Goucha, que se considerava o apresentador “principal”.

Estive na inauguração do novo estúdio, aquele onde ainda hoje se fazem os programas. Testemunhei umas dezenas de decorações diferentes. Passei pela fase “Portugal no Coração”, quando este ainda era feito no Porto e era separado do estúdio da Praça da Alegria por uma parede com uma abertura no meio. Nessa altura, era nas mesas do estúdio da Praça da Alegria que esperava para entrar em cena no programa “do Malato”.

Quando o “Portugal no Coração” se mudou para Lisboa, os coros do meu pai – que começaram a tornar-se, aos poucos, os coros “da casa” – passaram a ser convidados apenas para a Praça da Alegria e para alguns especiais feitos no Porto.

Ao longo dos anos, começamos a ter uma ligação especial com a produção, os apresentadores, os câmaras, os técnicos. A substituição do Goucha pelo Jorge Gabriel veio revelar-se bem agradável – este segundo sempre foi bem mais simpático, ao ponto de, hoje em dia, o considerarmos, tal como à Sónia Araújo, um amigo.

À medida que o tempo foi passando, toda a equipa se foi tornando muito familiar e sempre nos fizeram sentir em casa. 

Foi com grande tristeza que recebi, há uns dias, a notícia de que a Praça da Alegria se vai mudar para Lisboa. Porque, apesar de ser um programa semelhante às pimbalhadas dos programas da manhã dos outros canais, a Praça da Alegria é o único programa da RTP que dá voz à cultura nortenha. Aquilo que este programa faz é precisamente aquilo que um canal de Serviço Público deve fazer: mostrar aquilo que de bom se faz no país.

As paredes dos camarins, há uns anos, poderiam explicar a importância da Praça da Alegria no Norte: nas paredes, havia autocolantes e mensagens de centenas de grupos: o rancho daqui, o grupo de dança dali, o coro de acolá, a banda de não sei onde. Centenas de artistas que ficariam eternamente no anonimato se não tivessem a “montra” que é este programa.

Entretanto, decidiram arrancar os autocolantes da parede e dar-lhe nova pintura. Quem entrar naqueles camarins, neste momento, não faz ideia da quantidade de histórias que já passaram por ali. Mas eu sei, e todos os grupos que tiveram o prazer de ser acarinhados pela Praça da Alegria durante tantos anos também sabem.

A minha atividade artística, porém, não ficou só pelas Clavezinhas de Sol e entretanto pelo Sol Maior. Desde que entrei no Orfeão Universitário do Porto, voltei a sentir o apoio da produção da Praça da Alegria na divulgação das nossas atividades. Quando foi preciso divulgar o FITU (Festival Internacional de Tunas Universitárias), a Praça da Alegria foi recurso obrigatório. Fui lá duas vezes cantar com a Tuna Feminina do OUP, e conseguimos lá levar a extraordinária Tuna de Segreles de Puerto Rico, que trouxe uma injeção de boa disposição àquele estúdio.

Com esse programa, chegamos a mais gente, que de outra forma não saberia que o FITU ia acontecer e de outra forma não teria comprado bilhete para ver, ao vivo, uma das melhores tunas do mundo.

Mas nem só de arte vive aquele programa. Quando a Anocas, uma princesa linda que vive na Maia, precisou de ajuda, lá estava a Praça da Alegria a divulgar a sua história e a apelar à generosidade dos portugueses. Como a da Anocas, muitas histórias foram contadas, e muitas pessoas foram ajudadas graças ao programa.

Tudo isto para dizer: é ridículo que se equacione sequer o fim da Praça da Alegria nos estúdios da RTP Porto. Com ele, morrerá também mais um pouco o suposto “Serviço Público” que a RTP tanto diz defender.  A própria Praça da Alegria morre, porque perde a sua identidade. Para não falar da quantidade de postos de trabalho que se perderão. Gente competente naquilo que faz que ficará sem emprego ou que se sujeitará a deixar a família para trás para poder continuar a ter trabalho. 

Com a saída da Praça da Alegria dos estúdios do Porto, perde-se uma casa de boa televisão, perde-se a oportunidade de tantos e tantos artistas de serem vistos e reconhecidos pelo público. Há anos que artistas profissionais se deslocam ao programa de forma gratuita, só pelo carinho com que são recebidos e pela visibilidade que essa ida lhes garante. Com a transferência para Lisboa, alguém considera que a RTP vai pagar transportes aos artistas nortenhos para continuarem a fazer parte da “casa” que é este programa?

Não vai. E este é mais um fim para a RTP, mais um fim para a televisão, mais um fim para o Serviço Público. E assim vamos andando, com passos firmes, em direção ao empobrecimento do país.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Estão vivos outra vez



Foi muito mais do que um concerto. Foi olhar para o palco e estar ali a minha adolescência toda. Eu, que tenho a mania de associar a música a pessoas e a momentos concretos, vi um desfilar de gente diferente naquelas canções. A voz não chegou. Ficou lá toda, no Coliseu. Se mais tivesse, mais tinha gasto.

Ouvi Ornatos Violeta pela primeira vez numa viagem Fátima – Porto, nos inícios do meu Secundário. Uma amiga minha tinha no mp3 e mostrou-me, a dizer “Ouve esta banda que me mostraram. É mesmo diferente do habitual mas é espetacular!”. Deixou-me com o “1 Beijo = mil”. Achei piada à música. Mas aquele “É fácil amar e ser amado / é só ter jeito para falar o que é melhor de ouvir. / Mas o calor, que é puro, que é bom, / só acontece quando nada é claro” deu-me um nó qualquer cá dentro. Aqueles versos nada “politicamente corretos”, nada cor-de-rosinha, fizeram nascer uma grande dependência, que me acompanhou o crescimento.

Ouvir Ornatos sempre foi muito medicinal para mim. Ainda que o mundo estivesse a desabar, havia sempre um “Dia Mau” para cantar a plenos pulmões. A energia ficava toda na música. Isso e os impossíveis todos que construía na minha cabeça. Nunca paguei contas em raiva, porque sempre estive avisada que às vezes “o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura”.

Se os MP3s riscassem como os CD’s, o “O Monstro Precisa de Amigos” teria cavado crateras no meu. Muitas viagens de autocarro tiveram a Chaga como pano de fundo, e eu tinha que me conter muito para não começar aos saltos e a cantar em plenos pulmões em frente às velhinhas com quem partilhava transporte.

Ainda hoje, ouvir Ornatos é cura para muitas chagas. Por isso, não há palavras para descrever o concerto a que tive o privilégio de assistir ontem à noite.

É notável o que o tempo é capaz de fazer. Os Ornatos fizeram o seu suposto último concerto no Hard Club, a 30 de novembro de 2002. Nessa altura, tinha eu 11 anos, devia andar ocupada a ouvir D’ZRT e lixo do género. Entretanto, o tempo encarregou-se de me mostrar aquela que havia de ser uma das minhas bandas de eleição. É a prova de que a verdadeira música não vem com as modas, mas sim do talento genuíno.

Uns zés-ninguém, que terminaram a sua carreira enquanto banda no Hard Club e se lançaram em novos projetos, foram capazes de, passados dez anos, encher seis coliseus do dia para a noite. Foram capazes de pôr uma plateia ao rubro, a cantar em coro todas as suas letras. Foram capazes de encher de lágrimas muitos dos que, como eu, achavam que nunca teriam oportunidade de os ver ao vivo.

Ornatos Violeta é uma geração inteira. Quando, ontem à noite, me lembrava de olhar à minha volta, via gente da minha idade, alguns mais velhos, a viver a sua juventude toda naquelas músicas. Dançavam com o corpo todo, cantavam com a voz que tinham e com a que não tinham. Quando tocavam temas inéditos, limitavam-se a absorver a voz inconfundível de Manuel Cruz e as melodias que aqueles músicos gigantes arrancavam dos instrumentos.

Foi, acima de tudo, um concerto verdadeiro. (Quase) Nada ficou por tocar. A emoção dos elementos da banda era quase palpável. Desfizeram-se em agradecimentos durante as três horas em que estiveram a tocar. O Manuel Cruz não desiludiu nem por um segundo. O Peixe surpreendeu, com aqueles solos brilhantes. Não sei como é que o baterista não saiu de lá sem braços.

Durante aquelas horas, fez-se verdadeira música no Coliseu. Daquela que vai direta, num canal qualquer, do ouvido para o coração.

Com uma humildade que contrastou com a grandiosidade da sua música, os músicos da mítica banda deram aos fãs uma despedida arrebatadora, que com certeza não sairá das suas (nossas) memórias nunca mais. Chegava a ser enternecedora a forma como manifestavam a sua gratidão perante aquele público imparável.

Agora é a nossa vez de agradecer. Obrigada, Ornatos Violeta, por fazerem música indestrutível. Obrigada por tanta verdade e tanta poesia. Obrigada por serem portugueses, por terem inspirado tanta gente e por provarem que o verdadeiro talento e o trabalho árduo não têm outro destino senão o sucesso.

"E aparece assim, acendeu-se a luz, estão vivos outra vez".

E não é que estão mesmo?

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Alice no País de Quê?


Antes de mais, peço desculpa pela falta de atualidade nesta minha análise, mas não sou daquelas pessoas que estão sempre dentro do último grito do cinema. Sou uma pirata – prendam-me por favor – e espero que os filmes tenham suficiente qualidade para os poder sacar e ver em HD num cantinho do meu sofá.
Vou, portanto, entrar por um assunto que já muitos analisaram até à exaustão: “Alice in Wonderland”, versão Tim Burton.


Por acaso fui vê-lo ao cinema na altura em que saiu. Dinheiro mal gasto: passado meia hora, as cadeiras confortáveis da sala de cinema já estavam confortáveis demais e comecei a ter aquele sono que nos primeiros minutos ainda se combate, porque nos concentramos no dinheiro que gastamos para estar ali. No entanto, acabei por me dar por vencida e dormi profundamente o resto do filme.
Hoje, porém, decidi dar-lhe uma nova oportunidade e voltei a vê-lo, desta vez acordada do início ao fim. Mas com uma diferença: se antes eu nem sequer me lembrava bem da história da Alice no País das Maravilhas, agora (por razões que não são para aqui chamadas) sou quase obcecada pelo conto. Leio todas as versões e traduções que me aparecem à frente e chego a lembrar-me de falas das personagens no meio de conversas que nada têm a ver com o assunto. Assisti ao filme, portanto, com um sentido crítico muito mais vincado.
Poderia resumir a minha análise a esta frase: se o Lewis Carroll tivesse oportunidade de ver o filme, teria dado trinta voltas na campa com o choque.
Que machadada à história, e que aproveitamento ao usar o nome “Alice no País das Maravilhas” para um filme que nada tem a ver com o conto original! Burton pegou na história, imaginou uma sequela em que a personagem principal é agora uma jovem adulta e transformou a história num filme tipicamente hollywoodesco, com a Alice no lado dos bonzinhos em luta contra aos maus da fita.
Há cenas de ação, batalhas campais, ambientes quase românticos entre o Chapeleiro Louco e Alice. As provocações das personagens à protagonista e os jogos de palavras desaparecem, as personagens são adulteradas (a Dormouse, que no original aparece sempre a dormir e só acorda para dizer uma ou duas frases durante a Tea Party, é agora um ratinho com voz irritante que intervém durante todo filme e defende que aquela não é “a Alice certa”), Alice é transformada na heroína que vai salvar o País das Maravilhas da terrível Rainha Vermelha.
Tudo faz sentido, as peças encaixam todas no final. Não há pinga de “nonsense”, o espectador não fica com nada para refletir no fim. Acabam todos felizes para sempre, Alice ganha coragem para declinar o pedido de casamento do Lord e transforma-se numa mulher de negócios.
Desaparece tudo: o desconcertante Chapeleiro Louco, as provocações acerca do tempo, com os seus relógios estranhos que não marcam as horas mas marcam o mês e o ano; a Lagarta azul que pergunta repetidamente a Alice quem ela é e a deixa sempre confusa; a Duquesa e a cozinheira, duas personagens cruciais, nem chegam a aparecer – Burton põe o Coelho a cozinhar na casa da Rainha Branca e a pôr pimenta a mais na comida.
Todo o simbolismo e sentido poético da obra de Carroll desaparece e transforma-se em mais um filme de aventuras, numa luta dos bons contra os maus – um autêntico cliché.
A única personagem que merece (tímidos) aplausos é a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) – afinal, nem sequer existe uma Rainha Branca na obra de Carroll. Essa, sim, mantém a postura inflexível de mandar cortar a cabeça a tudo e todos como se estivesse a mandar cortar a relva. Só aí o País das Maravilhas fica mais ou menos reconhecível. Ainda assim, uma interpretação que fica bastante aquém da personagem da Disney (1951) ou da histérica rainha (Miranda Richardson) no filme de Nick Willing (1999).
É um belo filme de entretenimento, com bonitos cenários, “à Tim Burton”, mas definitivamente não é a “Alice no País das Maravilhas”. Talvez seja mais uma “Alice no País do Tim Burton” ou a “Alice no País das Crónicas de Nárnia”.
A Lagarta azul tinha toda a razão no início do filme: aquela dificilmente poderia ser a “verdadeira Alice”. Durante todo o filme, essa teoria é constantemente comprovada – eu, pelo menos, não a reconheci a Alice de Lewis Carroll em nenhum momento da história.

A História repete-se

Basta ler Eça de Queirós para perceber que o problema português é quase crónico. Agora a questão que se impõe: porque é que os nossos ilustres deputados, em vez de fazerem licenciaturas por encomenda, não estudam a História do nosso país?



Em 1851, o golpe de Estado do marechal-duque de Saldanha instaurou uma nova etapa política em Portugal - a Regeneração. Esta época  foi caracterizada pelo esforço de desenvolvimento económico e de modernização de Portugal. Depois de 30 anos de lutas civis, iniciou-se um período (aparentemente) próspero. Tentou-se conciliar as diversas facções do Liberalismo e, através de ajuda externa, conseguiu-se chegar um período pacífico em que dois partidos (sem uma diferença ideológica substancial) alternavam no governo.

Rapidamente associamos este período ao "Fontismo", tão repetido nas aulas de História durante o ensino básico e secundário. O ministro Fontes Pereira de Melo, preocupado em recuperar o país do atraso económico e tecnológico, iniciou uma forte política de obras públicas, com a construção de novos meios de comunicação e transporte. Estradas, caminhos-de-ferro, carros eléctricos, pontes, portos, telégrafo e telefone - foi uma alegria de desenvolvimento. Claro que não passava pelas cabeças pensantes dos ministros que talvez tivessem que pagar tudo aquilo que estavam a gastar.

Qual o desfecho deste "equilíbrio" aparente e deste desenvolvimento ilusório? Um país que, a olho nú, era próspero, acabou falido, nas mãos de uma aliança de credores da França e da Inglaterra.

As dívidas ao estrangeiro contraídas para pagar as infra-estruturas agravaram a situação económica. A estes problemas junta-se a fraude, a corrupção do poder político - não soa familiar?

O panorama agrava-se com o predomínio da mentalidade rural sobre a urbana; a indústria moderna não se desenvolveu, a concorrência estrangeira derrubou a fraca indústria portuguesa e nos campos a situação era aflitiva. A emigração aumentou, sobretudo para o Brasil.

Nas artes e nas letras, vivia-se em condições difíceis, com falta de apoios. O Governo aproveitou as suas necessidades para oferecer importantes cargos em troca do "controlo da pena". Surge a chamada "literatura oficial" - muito conveniente, por sinal.

É contra todas estas condições que surge a Geração de 70, um grupo de estudantes da Universidade de Coimbra liderado ideologicamente por Antero de Quental e José Fontana e do qual fizeram parte alguns dos maiores escritores da História da Literatura portuguesa - Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Téofilo Braga e Guerra Junqueiro. 

Este grupo insurge-se contra o estado miserável em que o país se encontrava, contra a decadência da realidade política, cultural e social do país. Mostra o seu descontentamento quanto à corrupção, à fraude, aos exageros do governo. Estes jovens defendem, com prosas invejáveis, uma maior abertura à cultura europeia e uma reforma do País, sobretudo a nível cultural.

Iluminados por ideias inovadoras que assimilaram da cultura europeia, sobretudo da francesa, opuseram-se ao governo monárquico e "absolutista" em vigor. Agitaram consciências, poderes estabelecidos e protagonizaram uma autêntica revolução cultural no nosso País.

Passados tantos anos, parece que a Democracia não aprendeu com a História do nosso país... quando teremos coragem para ser a nova Geração de 70?

"Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte."

Eça de Queirós, in 'Farpas (1872)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O “democrático” Portugal


Gostava de lembrar uma coisa de que muita gente se parece esquecer hoje em dia: para haver democracia não basta que o governo diga que é democrático. Também não basta que a população ache que vive numa democracia. É preciso que realmente o poder esteja a cargo do povo ("demo+kratos" = poder do povo).

Por mais voltas que se dê, não há democracia sem imprensa livre. E não há imprensa livre sem meios para ela acontecer. Os jornalistas podem ser muito boas pessoas e querer muito contribuir para uma verdadeira democracia; mas também gostam, vá-se lá perceber, de dar de comer aos filhos.



Muita gente critica, a altos berros, o estado da imprensa portuguesa. Criticam os conteúdos, a forma, os títulos, as imagens. Eu também critico.

O Cristiano Ronaldo nunca teve tanta importância como nos últimos meses. Interessa tudo: o que ele come, onde dorme, como está vestido, onde faz férias com a namorada e se explora bem o corpo dela. O Justin Bieber também deve ter as orelhinhas a arder. No outro dia, fiquei muito feliz por saber que a Christina Aguilera não gosta de usar cuecas.

Mas agora eu pergunto: estão à espera de quê?

Este mês, o (até agora) melhor jornal português levou uma machadada gigante: 36 jornalistas, entre os quais estavam ótimos profissionais, estão na rua; a agência noticiosa responsável por cerca de 70% das notícias que se publicam em Portugal sofreu um corte de 31% no seu orçamento; a Controlinveste, que possui publicações como o “Diário de Notícias”, o “Jornal de Notícias” e a “TSF”, corre o risco de ser comprada por um grupo angolano; a RTP é o que se sabe.

O povo português assustou-se com as medidas de austeridade e já são poucos os que compram jornais (não é que antes das medidas comprassem muito). Os leitores migraram para a Internet, que é gratuita. Mas deixem-me que vos desiluda: a informação de qualidade precisa de dinheiro para subsistir. Não há gente suficientemente altruísta para fazer jornalismo por caridade. Os administradores dos jornais, antes de dar meios aos jornalistas para fazerem reportagens decentes, olham para as contas e vêm se isso lhes vai dar prejuízo. Bom jornalismo dá trabalho e tem que pagar salários.

As “pressões económicas” de que tanto se fala são muito simples: se o Zé Povinho só quer saber do Cristiano Ronaldo, vamos dar-lhe Cristiano Ronaldo para podermos todos comer. É disto que se trata.


Em agosto estive em Angola em Missão. Apesar do pouco tempo que lá passei, consegui perceber, de certa forma, a mentalidade daquele povo e alguns dos seus problemas. Em conversa com alguns angolanos, fiquei a perceber o porquê da maioria esmagadora de José Eduardo dos Santos nas últimas eleições. Não é que a população viva bem e satisfeita com as políticas dele. Não é que todos usufruam da abundância de recursos do país e que estejam a recuperar da guerra com igualdade… mas o povo angolano não confia em mais candidato nenhum. Na verdade, praticamente não ouvem falar de outros candidatos. Quando ouvem, é para cascar neles.

Há uma ideia muito comum - votar noutro partido pode significar a chegada de algo que o povo demorou muito tempo a expulsar: a guerra.

Por curiosidade, comprei o Jornal de Angola por duas vezes durante a minha estadia em Luanda. Mal abri o jornal, assaltou-me uma dúvida: isto é para rir ou para chorar?

Em destaque, estava uma caixa intitulada “Ditos & Feitos Eleitorais”. Não estava assinada – não era uma notícia, ou uma crónica, ou artigo de opinião, ou um editorial. Era uma “coisa” sobre a campanha eleitoral. Citando algumas partes deste texto:

“Pela campanha eleitoral se percebe porque razão os partidos de oposição se queixam da falta de acesso aos órgãos de comunicação social públicos. Eles querem transformar mentiras e calúnias em regras. Pretendem fazer de ofensas graves coisas banais. Imitam na perfeição os ‘jornalistas’ que passam a vida a insultar o Presidente da República, os seus colaboradores mais próximos e os familiares. (…)
O PRS está de cabeça perdida. Afirmar no seu tempo de antena de ontem que o Presidente José Eduardo dos Santos é dono de várias empresas nacionais e internacionais, mais de blocos de petróleo, é descer ao nível do Rafael Marques, que anda a rastejar pelas ruas da amargura. A campanha eleitoral não pode servir para ajustes de contas numa espécie de Carnaval onde vale tudo e ninguém leva a mal.
José Eduardo dos Santos é cabeça de lista do MPLA e nessa qualidade tem os mesmos direitos e deveres de todos os outros. Por isso ninguém pode fazer gravíssimas acusações contra a sua pessoa com base no “ouvi dizer” ou, pior ainda, em matérias publicadas em pasquins infetos que, infelizmente, continuam a poluir a honrada Imprensa Angolana (…).
Depois os tempos de antena da UNITA, CASA-CE e PRS abriram as “comportas” e começaram a despejar porcaria para cima do candidato José Eduardo dos Santos”.

Isto é um texto de um jornal da “democrática” Angola.

Como se vê, não basta haver eleições para fazer viver uma Democracia. É necessário haver quem a fiscalize e quem denuncie os abusos de poder para que o povo seja, efetivamente, soberano.

Para onde caminhamos? Até onde vai a austeridade? Vamos deixar que nos tirem, além do poder de compra, o direito de viver num país livre?

Whiskas Saquetas

Começo a ficar habituada a ouvir falar de défices, cortes, austeridade, crises. Estas palavras já fazem parte do “blá blá blá” quotidiano, ao qual vou deixando de prestar atenção para não ficar (mais) deprimida.

Este mês, porém, veio o “Whiskas Saquetas” desta conversa toda. Fruto das políticas de austeridade e de contenção dos vários governos europeus, o orçamento do programa Erasmus tem um défice de 10 mil milhões de euros e o seu financiamento pode estar em risco.

Ora eu, que já estou habituada a que me mexam no bolso (ou no dos meus pais, que se fossem ao meu só encontravam ar e vento), fiquei mais indignada com esta notícia do que com todas as outras que envolvam Coelhos, Portas e Troikas. Antes que as mentes brilhantes presentes na Comissão Europeia se lembrem de cortar o mal pela raiz e eliminem o programa Erasmus da sua lista de problemas, deixem-me que reflita sobre esta questão (porque as minhas reflexões têm enormes repercussões nas decisões dos eurodeputados, é claro).

Como ex-estudante universitária que teve oportunidade de usufruir do programa Erasmus, acho que posso afirmar que fazer Erasmus é, para grande parte dos estudantes, “A” experiência da sua vida.



Erasmus é palco das grandes e definitivas transformações na vida de um jovem: quem achava que o fogão só servia para pousar as embalagens de lasanha compradas no Pingo Doce acaba por descobrir que dali podem nascer autênticos milagres gastronómicos; quem achava que sem GPS mais cedo ou mais tarde iria parar a uma valeta longínqua sem hipótese de regressar, percebe que, com um simples mapa e muita lata para chatear transeuntes, qualquer cidade se transforma rapidamente na nossa casa; mesmo aqueles cujo inglês era rudimentar e que receavam não conseguir comunicar com a população local, de repente são capazes de falar uma nova língua com uma fluência em que eles próprios não acreditam.

Os tímidos ativam o modo “desenrascanço” e são os primeiros a iniciar uma conversa; os NERDs descobrem que existe vida social à volta deles; os incultos percebem que há mais mundo para além do quadrado de terra onde vivem; quem tem horizontes curtos aprende que os impossíveis tornam-se possíveis desde que queiramos lutar por eles; os “deixa andar” descobrem que a única solução para combater o relógio é viver tudo ao máximo.

Numa perspetiva mais global, 25 anos de Erasmus tornaram realidade a ideia de uma União Europeia que ultrapassa os limites da Economia. No ano passado, o romancista italiano Umberto Eco disse que “o Erasmus criou a primeira geração de jovens europeus”.

É verdade. Esta é uma geração que já não pensa em nascer, viver e morrer no mesmo pedaço de terra. É uma geração sedenta de conhecer, de viver, de pensar diferente. Que em vez de ficar sentada no café a rodear anúncios de emprego nas folhas dos jornais, procura o seu futuro a milhares de quilómetros.

Para nós – jovens que tiveram o privilégio de experimentar esta mobilidade – a Europa é a nossa casa, e os outros continentes são já ali ao lado. O futuro é nosso e de nós depende.

Acredito que, se o Prémio Nobel da Paz atribuído à União Europeia faz algum sentido, esse sentido não vem de uma União meramente económica; o sentido vem de uma União de pessoas que põem as suas culturas e histórias individuais ao serviço de um bem-comum.

O programa Erasmus é um passo gigante no sentido dessa União de pessoas. E se há programa merecedor de atenção por parte da “pacífica” Europa, é este.

A Comissão Europeia admite que as bolsas não cheguem a tempo de financiar o intercâmbio dos estudantes inscritos em Erasmus no segundo semestre do ano letivo (2012/2013). Ora, se me permitem colocar as coisas no extremo: vamos deixar que a mobilidade nos cidadãos europeus seja restrita a “meninos ricos”?

Numa União Económica que muitos consideram praticamente morta, que se salvaguarde o futuro dos jovens. Afinal, é nas nossas mãos que estará o desfecho (ou a continuação) da trama europeia.

"Análise extremamente fundamentada de cenas"

Nem sei porque é que vou escrever uma introdução a este blogue. O título diz tudo: é uma análise extremamente fundamentada de cenas. Figurarão neste espaço todas as cenas que me parecerem suficientemente interessantes de analisar, com a salvaguarda de que qualquer análise da minha parte será extremamente fundamentada – quanto mais não seja, fundamentada na minha parvoíce.

Poderei analisar temas relacionados com Política, ou Economia, ou Sociedade. Poderei também analisar filmes, músicas, poemas. Em estado de desespero, analisarei receitas de culinária, sinais de trânsito, conversas que atentamente ouvi no metro ou coscuvilhices que fiquei a saber através do Facebook.

Tendo em conta o meu estado atual – recém-licenciada, à procura do primeiro emprego (um ótimo eufemismo para “desempregada”) – poderão aparecer também análises desesperadas a anúncios do Net-Empregos, do Carga de Trabalhos ou plataformas semelhantes (dava para escrever um livro acerca destes últimos).

No fundo é uma forma de passar o tempo e de me sentir mais uma “comentadora da atualidade”. À falta de soluções para os problemas do país (e para os meus próprios problemas), vou comentando e analisando. Podia-me dar para pior!