quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Serviço Público de Televisão?


Para muitos será só mais um programa de pimbalhada. Para quem é do Norte e está ligado à arte e à cultura de alguma forma, é uma rampa de lançamento.

Frequento os estúdios da RTP Porto, com os coros de que faço parte, desde os meus seis anos. Passei pelo estúdio antigo, quando o cenário da Praça da Alegria era uma esplanada igual às da Ribeira e o Hélder Reis era o “moço” que servia cafés e águas. Passei pela fase em que a Sónia Araújo era a sombra do Manuel Luís Goucha, que se considerava o apresentador “principal”.

Estive na inauguração do novo estúdio, aquele onde ainda hoje se fazem os programas. Testemunhei umas dezenas de decorações diferentes. Passei pela fase “Portugal no Coração”, quando este ainda era feito no Porto e era separado do estúdio da Praça da Alegria por uma parede com uma abertura no meio. Nessa altura, era nas mesas do estúdio da Praça da Alegria que esperava para entrar em cena no programa “do Malato”.

Quando o “Portugal no Coração” se mudou para Lisboa, os coros do meu pai – que começaram a tornar-se, aos poucos, os coros “da casa” – passaram a ser convidados apenas para a Praça da Alegria e para alguns especiais feitos no Porto.

Ao longo dos anos, começamos a ter uma ligação especial com a produção, os apresentadores, os câmaras, os técnicos. A substituição do Goucha pelo Jorge Gabriel veio revelar-se bem agradável – este segundo sempre foi bem mais simpático, ao ponto de, hoje em dia, o considerarmos, tal como à Sónia Araújo, um amigo.

À medida que o tempo foi passando, toda a equipa se foi tornando muito familiar e sempre nos fizeram sentir em casa. 

Foi com grande tristeza que recebi, há uns dias, a notícia de que a Praça da Alegria se vai mudar para Lisboa. Porque, apesar de ser um programa semelhante às pimbalhadas dos programas da manhã dos outros canais, a Praça da Alegria é o único programa da RTP que dá voz à cultura nortenha. Aquilo que este programa faz é precisamente aquilo que um canal de Serviço Público deve fazer: mostrar aquilo que de bom se faz no país.

As paredes dos camarins, há uns anos, poderiam explicar a importância da Praça da Alegria no Norte: nas paredes, havia autocolantes e mensagens de centenas de grupos: o rancho daqui, o grupo de dança dali, o coro de acolá, a banda de não sei onde. Centenas de artistas que ficariam eternamente no anonimato se não tivessem a “montra” que é este programa.

Entretanto, decidiram arrancar os autocolantes da parede e dar-lhe nova pintura. Quem entrar naqueles camarins, neste momento, não faz ideia da quantidade de histórias que já passaram por ali. Mas eu sei, e todos os grupos que tiveram o prazer de ser acarinhados pela Praça da Alegria durante tantos anos também sabem.

A minha atividade artística, porém, não ficou só pelas Clavezinhas de Sol e entretanto pelo Sol Maior. Desde que entrei no Orfeão Universitário do Porto, voltei a sentir o apoio da produção da Praça da Alegria na divulgação das nossas atividades. Quando foi preciso divulgar o FITU (Festival Internacional de Tunas Universitárias), a Praça da Alegria foi recurso obrigatório. Fui lá duas vezes cantar com a Tuna Feminina do OUP, e conseguimos lá levar a extraordinária Tuna de Segreles de Puerto Rico, que trouxe uma injeção de boa disposição àquele estúdio.

Com esse programa, chegamos a mais gente, que de outra forma não saberia que o FITU ia acontecer e de outra forma não teria comprado bilhete para ver, ao vivo, uma das melhores tunas do mundo.

Mas nem só de arte vive aquele programa. Quando a Anocas, uma princesa linda que vive na Maia, precisou de ajuda, lá estava a Praça da Alegria a divulgar a sua história e a apelar à generosidade dos portugueses. Como a da Anocas, muitas histórias foram contadas, e muitas pessoas foram ajudadas graças ao programa.

Tudo isto para dizer: é ridículo que se equacione sequer o fim da Praça da Alegria nos estúdios da RTP Porto. Com ele, morrerá também mais um pouco o suposto “Serviço Público” que a RTP tanto diz defender.  A própria Praça da Alegria morre, porque perde a sua identidade. Para não falar da quantidade de postos de trabalho que se perderão. Gente competente naquilo que faz que ficará sem emprego ou que se sujeitará a deixar a família para trás para poder continuar a ter trabalho. 

Com a saída da Praça da Alegria dos estúdios do Porto, perde-se uma casa de boa televisão, perde-se a oportunidade de tantos e tantos artistas de serem vistos e reconhecidos pelo público. Há anos que artistas profissionais se deslocam ao programa de forma gratuita, só pelo carinho com que são recebidos e pela visibilidade que essa ida lhes garante. Com a transferência para Lisboa, alguém considera que a RTP vai pagar transportes aos artistas nortenhos para continuarem a fazer parte da “casa” que é este programa?

Não vai. E este é mais um fim para a RTP, mais um fim para a televisão, mais um fim para o Serviço Público. E assim vamos andando, com passos firmes, em direção ao empobrecimento do país.