Passamos anos da nossa vida a
estudar coisas que nos fascinam. Um jornalismo que procura a verdade acima de
todas as coisas, que ouve o outro lado, que respeita a integridade de cada ser
humano e, mais do que isso, a defende. Debruçamo-nos sobre a ética, a
deontologia, o que deve ser e o que não podemos deixar que aconteça. Falamos
sobre o papel do jornalista na democracia, do “quarto poder” que questiona
todos os outros, da voz do povo. Sentimo-nos autênticos profetas deste mundo
corrompido pelo capitalismo, pelos lobbies
partidários e pelos interesses particulares. Connosco é que vai ser. Vamos ser
sempre partidários da verdade e da imparcialidade e não iremos nunca contra
aquilo em que firmemente acreditamos.
Fazemos discursos bonitos como
ouvimos da boca dos nossos professores, grandes doutores nisto e naquilo.
Aquilo sabe-nos bem, diz-nos algo, faz-nos sentir que temos um papel. Ansiamos
o dia em que nos hão-de dar uma oportunidade de colocar tudo isto em prática.
E de repente caímos no “mercado”
de trabalho. De repente temos um salário a cair certo na nossa conta, pura e
simplesmente para fazermos jornalismo. E percebemos que não há nada mais errado
que entrar no “mercado” para fazer aquilo que é o nosso sonho. Porque é nisso
mesmo que se transforma, num “mercado” onde ganha quem tiver mais dinheiro, e
tem mais dinheiro quem é capaz de calcar, um por um, todos os princípios que
nos ensinaram na Universidade.
De repente cai-nos à frente a
realidade, crua e dura: não se olha a meios para chegar aos fins, que acabam
totalmente distorcidos. É-se comprado pelos interesses políticos, pelos
interesses económicos, religiosos. O jornalismo serve para arrancar uns trocos
deste e daquele, que são uns grandes benfeitores porque apostam na “verdade”.
“Jornalistas” que se apoderam do
trabalho dos outros sem hesitar um segundo. Que se deixam comprar sem sequer se
preocuparem em disfarçar. Que fazem jogo duplo para enganar tudo e todos, e
atingir assim o “sucesso” e a “credibilidade”. “Jornalistas” que se gabam de
calcar a dignidade do outro para vender capas, que manipulam a informação de
uma forma flagrante, que não nutrem uma ponta de respeito por ninguém – nem por
eles mesmos.
Tachos e panelas para o amigo
daqui, o primo de acolá, o tio dali. O profissionalismo, a isenção, a qualidade
de trabalho são totalmente esquecidas em favor das cunhas, das “amizades”, dos jeitinhos.
E no meio disto tudo chamam-nos jornalistas.
O título que sempre ambicionamos está lá, colado a nós. Mas de repente não nos
identificamos. Se é isto o jornalismo, então talvez não valha a pena. Se a solução
é fechar a boca e abanar a cabeça só porque a conta está lá, recheada, ao final
do mês, então não era este o sonho.
Ou talvez tenha que esperar só
mais um pouco que isto melhore. Talvez deva ter esperança porque um dia havemos
de ter um espaço de manobra mais largo para exercemos o verdadeiro jornalismo.
Talvez seja só engolir alguns sapos por agora.
Até quando?
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