Apetece-me escrever um texto lamechas sobre uma série. Isso mesmo. Acabei de ver o último episódio daquela que é, para muitos, a melhor série da história da televisão, e como infelizmente não tenho mais episódios para devorar e já poucas entrevistas restam no Youtube para ver, tinha que arranjar algo para fazer.
Eu não sei se “Breaking Bad” é a melhor série de todos os tempos. Já o li e reli em muitos lados, mas eu não vi todas as séries de todos os tempos para o poder afirmar. Nem de longe nem de perto. Ainda assim, posso afirmar que esta é a série mais bem construída, filmada e interpretada que alguma vez vi.
Ainda estou a tentar recompor-me. Eu nunca fui muito pessoa de ver séries porque era raro chegar ao fim e ficar com esta sensação, como quem acaba de ler um grande livro. Como quando, ao virar a última página, ao fechar o livro, a segurá-lo com as duas mãos, pensamos: “já não há vida para além disto”. E ficamos a tentar encerrar a história cá dentro, a calar a vontade de que ela não acabe e a recapitular tudo para a guardarmos na memória.
“Breaking Bad” tem tudo o que é preciso. Um grande argumento, um elenco fabuloso, um diretor de fotografia que merecia um altar. Mas acima de tudo, “Breaking Bad” é capaz de nos pôr em causa.
Todos estamos habituados aos bonzinhos que no final são recompensados pelas suas boas ações; aos vilões que acabam por morrer ou ganham o castigo que merecem. Vezes há, até, em que nos deixamos simpatizar com o mau da fita, sempre sem nos esquecermos que ele tem aquele rótulo de “mau”, mas lá no fundo, no fundo, até é boa pessoa.
Vince Gilligan, o criador da série, teve a coragem de fugir a todos estes padrões. Foi capaz de criar uma personagem que se assemelha em tudo ao comum dos mortais, um simples professor de química que ama a família mais que tudo, que se farta de fazer sacrifícios para lhes dar uma vida digna. Todos simpatizamos com a personagem, identificamo-nos com ela, e até percebemos a nobre decisão de começar a produzir droga para ajudar a família, quando descobre que está doente, prestes a morrer.
Mas depois, quase sem nos darmos conta, a história começa a explorar, a pouco e pouco, o lado mais negro daquele comum mortal. Afinal, o “bonzinho” vai-se tornando outra pessoa, e nós não deixamos de gostar, de simpatizar, de nos identificarmos com o mostro que se vai criando. Através de uma história densa, que nos envolve, o autor vai-nos provocando, fazendo-nos questionar o quão “bonzinhos” somos todos afinal.
Bryan Cranston, o ator que brilhantemente interpreta a personagem principal, “Walter White”, tem repetido isto nas várias entrevistas que tem dado acerca da série: “o Walt é um simples ser humano. Qualquer um de nós, dentro de determinadas circunstâncias, e com um certo nível de desespero, pode tornar-se perigoso”.
E ele tem toda a razão. “Breaking Bad” baralha-nos os esquemas todos porque é assim, uma história crua, sem falsos moralismos. E a forma como é contada, com atenção aos pormenores mas sem os explorar demasiado, tem tão pouco de previsível como de cansativa. Cada episódio deixa-nos sempre com vontade de ver mais, e mais, e mais.
A cereja no topo do bolo é que “Breaking Bad” não é um “one man show”. Além de Walter White, praticamente todas as personagens são complexas, vivem por si, acrescentam muito valor à série. Exemplo disso é o carismático Jesse Pinkman, de quem é impossível não gostar, o hilariante advogado Saul com os seus esquemas loucos e o ar de cachorrinho abandonado quando alguém lhe levanta a voz, Gus Fring, um dos vilões mais geniais que já vi, o obstinado Hank, com a sua missão de apanhar o “longínquo” Heisenberg, a paranoica Marie e os seus filmes, Skyler e a sua eterna divisão entre o que é certo e o melhor para aqueles que ama.
Agora que cheguei ao fim da história, apetecia-me ver mais. Mas até nisso o amigo Vince acertou em cheio: é sempre melhor que acabe e deixe saudades do que durar até todos já se terem cansado.
Eu, porque vou ter saudades, decidi escrever este texto. Agora é curar a ressaca e tentar descobrir uma série que consiga chegar aos calcanhares desta.
Sugestões aceitam-se.

Nenhum comentário:
Postar um comentário