segunda-feira, 26 de maio de 2014

Sou abstencionista mas não queria ser

Ontem não votei. Faço parte daqueles 66% da população que não se manifestaram, deixaram tudo nas mãos de uns poucos. Não me orgulho particularmente disso, porque gostava de, daqui a uns anos, poder dizer aos meus netos “eu votei em todas as eleições desde os meus 18 anos”! Gostava de poder dar o exemplo.

Mas ontem não deixei de ir às urnas por a cama estar quentinha, por a praia me chamar ou por estar a gostar dos programas da SIC e da TVI (que segundo ouvi dizer foram iguais aos de sempre - igualmente maus). Não exerci o meu direito por o meu trabalho estar a 300 quilómetros da minha mesa de voto.

Dizem vocês: mas isso não é desculpa, tens o voto antecipado! Pois tenho. Usei-o quando estava de Erasmus, em Roma, dei-me ao trabalho de ir à embaixada uma semana antes, preencher não sei quantos papéis e meter a minha cruzinha num envelope para fazer ouvir a minha voz. Desta vez, não tinha uma embaixada do Porto em Lisboa para me dirigir, e não estive no norte 10 a 5 dias antes do sufrágio para poder fazê-lo na minha junta de freguesia. Nem tão pouco me lembrei dessa alternativa, para ser sincera.

Perguntam vocês, ainda escandalizados pela minha inércia: então e não ias ao Porto para poder participar? Ainda ponderei, posso garantir. Mas depois, ao fazer contas, percebi que ia gastar cerca de 40 euros para me meter no comboio, obrigar os meus pais a irem-me buscar à estação, chegar, dar um beijo à família, dirigir-me à escola de Gueifães, deixar lá uma cruzinha (ou um boletim vazio) voltar a Campanhã, voltar a meter-me no comboio, chegar a Lisboa e ir trabalhar.

Quando recapitulei todos esses passos, dei-me conta que podia poupar estes quarenta euros para quando aqueles que eu ajudaria a eleger mos quisessem tirar do bolso – e algo me diz que não vou ter que esperar muito.

Não gosto daquele discurso do “são todos tão maus que nem me vou dar ao trabalho de ir lá votar neles”. O voto é um direito conquistado por nós. Um direito a colocar lá em cima quem nós quisermos, ou um direito a mostrar que não gostamos de nenhum, e assim tirar-lhes percentagem. É isso o voto em branco, um voto de protesto, que se mistura com os outros todos e, pelo menos, mostra aos políticos que, antes de cantarem vitória, têm que perceber quem votou realmente neles.

Mas para analisar os números destas eleições, é preciso perceber que parte daquela enorme abstenção não é constituída por preguiçosos, mas por gente que trabalha, que não teve a sorte de ficar a viver no lugar onde nasceu. Já não se nasce, cresce, vive e morre na mesma terra. São cada vez mais os deslocados, ou fora das nossas fronteiras ou mesmo dentro. Que é feito da voz desses? Para quando o voto eletrónico, senão para todos, pelo menos para quem apresente uma justificação válida?

Com a tecnologia avançadíssima que temos, não conseguimos recolher o voto de quem não pode deslocar-se às urnas de uma maneira mais prática?

Fica a questão de uma eleitora que ainda não perdeu (totalmente) a esperança, que quer fazer-se ouvir, pelo menos para impedir o fenómeno que hoje se assiste por toda a Europa, com os partidos de extrema-direita e extrema-esquerda a registarem resultados históricos. É o povo desesperadamente à procura de uma alternativa, ainda que tenha obrigação de ter aprendido com a história que essa não pode ser nunca a nossa alternativa.
O meu voto nestas eleições é desejar que, num futuro próximo, o sufrágio seja mesmo um direito universal – até para aqueles que tiveram que “sair da sua zona de conforto” para procurar uma vida um pouco mais digna.

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