Queres fechar os olhos, os
músculos imploram que cedas à força da gravidade. Pedem que te deixes cair no
sono com todo o peso do teu corpo. Mas o coração não deixa. Deixas-te ficar
suspensa neste momento, não podes deixar escapar o que sentes.
Se estivesses com os teus, talvez o descrevesses assim: “sou uma sortuda do caralho”. E
ninguém ia ficar a olhar para ti com desdém nem a discorrer internamente sobre
a tua falta de chá. Há coisas que só se explicam sem chá nenhum, com um
copo de cerveja na mão a dizer as asneiras todas que te vêm à cabeça. E mesmo
assim parece que ainda não inventaram palavras suficientes para descrever.
Sabes que amanhã te vais
arrepender disto tudo, de ser assim sincera com o mundo, sem exibir a muralha
de pedra à tua volta que te faz parecer intocável, insensível, um verdadeiro
calhau sem sentimentos. Mas é isto que acontece por volta das quatro da manhã,
quando o sono está no pico e estás prestes a transformar-te em abóbora.
Que se lixe, com F maiúsculo.
Quando sabes que vieste parar ao lugar certo, sem ter que fazer grandes
piruetas, tudo o resto deixa de contar. Percebes que há anjinhos, ou
estrelinhas, ou outro diminutivo paneleiro qualquer, que merecem um Obrigado.
Pelo menos. Ou uma gratidão do tamanho do mundo, que nunca hás-de saber pagar
convenientemente.
A gratidão não se paga em finos.
Paga-se na luta diária por corresponder às expectativas. Paga-se a levar os
sonhos a sério. É essa a responsabilidade maior, a de agradecer a cada dia mais
um bocadinho.
A quem servir a carapuça,
obrigada pelos desafios que todos os dias proporcionam.
Se amanhã desmentir tudo isto, é
porque foi só o coração a falar. Às vezes também tem direito.
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