quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Alice no País de Quê?


Antes de mais, peço desculpa pela falta de atualidade nesta minha análise, mas não sou daquelas pessoas que estão sempre dentro do último grito do cinema. Sou uma pirata – prendam-me por favor – e espero que os filmes tenham suficiente qualidade para os poder sacar e ver em HD num cantinho do meu sofá.
Vou, portanto, entrar por um assunto que já muitos analisaram até à exaustão: “Alice in Wonderland”, versão Tim Burton.


Por acaso fui vê-lo ao cinema na altura em que saiu. Dinheiro mal gasto: passado meia hora, as cadeiras confortáveis da sala de cinema já estavam confortáveis demais e comecei a ter aquele sono que nos primeiros minutos ainda se combate, porque nos concentramos no dinheiro que gastamos para estar ali. No entanto, acabei por me dar por vencida e dormi profundamente o resto do filme.
Hoje, porém, decidi dar-lhe uma nova oportunidade e voltei a vê-lo, desta vez acordada do início ao fim. Mas com uma diferença: se antes eu nem sequer me lembrava bem da história da Alice no País das Maravilhas, agora (por razões que não são para aqui chamadas) sou quase obcecada pelo conto. Leio todas as versões e traduções que me aparecem à frente e chego a lembrar-me de falas das personagens no meio de conversas que nada têm a ver com o assunto. Assisti ao filme, portanto, com um sentido crítico muito mais vincado.
Poderia resumir a minha análise a esta frase: se o Lewis Carroll tivesse oportunidade de ver o filme, teria dado trinta voltas na campa com o choque.
Que machadada à história, e que aproveitamento ao usar o nome “Alice no País das Maravilhas” para um filme que nada tem a ver com o conto original! Burton pegou na história, imaginou uma sequela em que a personagem principal é agora uma jovem adulta e transformou a história num filme tipicamente hollywoodesco, com a Alice no lado dos bonzinhos em luta contra aos maus da fita.
Há cenas de ação, batalhas campais, ambientes quase românticos entre o Chapeleiro Louco e Alice. As provocações das personagens à protagonista e os jogos de palavras desaparecem, as personagens são adulteradas (a Dormouse, que no original aparece sempre a dormir e só acorda para dizer uma ou duas frases durante a Tea Party, é agora um ratinho com voz irritante que intervém durante todo filme e defende que aquela não é “a Alice certa”), Alice é transformada na heroína que vai salvar o País das Maravilhas da terrível Rainha Vermelha.
Tudo faz sentido, as peças encaixam todas no final. Não há pinga de “nonsense”, o espectador não fica com nada para refletir no fim. Acabam todos felizes para sempre, Alice ganha coragem para declinar o pedido de casamento do Lord e transforma-se numa mulher de negócios.
Desaparece tudo: o desconcertante Chapeleiro Louco, as provocações acerca do tempo, com os seus relógios estranhos que não marcam as horas mas marcam o mês e o ano; a Lagarta azul que pergunta repetidamente a Alice quem ela é e a deixa sempre confusa; a Duquesa e a cozinheira, duas personagens cruciais, nem chegam a aparecer – Burton põe o Coelho a cozinhar na casa da Rainha Branca e a pôr pimenta a mais na comida.
Todo o simbolismo e sentido poético da obra de Carroll desaparece e transforma-se em mais um filme de aventuras, numa luta dos bons contra os maus – um autêntico cliché.
A única personagem que merece (tímidos) aplausos é a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) – afinal, nem sequer existe uma Rainha Branca na obra de Carroll. Essa, sim, mantém a postura inflexível de mandar cortar a cabeça a tudo e todos como se estivesse a mandar cortar a relva. Só aí o País das Maravilhas fica mais ou menos reconhecível. Ainda assim, uma interpretação que fica bastante aquém da personagem da Disney (1951) ou da histérica rainha (Miranda Richardson) no filme de Nick Willing (1999).
É um belo filme de entretenimento, com bonitos cenários, “à Tim Burton”, mas definitivamente não é a “Alice no País das Maravilhas”. Talvez seja mais uma “Alice no País do Tim Burton” ou a “Alice no País das Crónicas de Nárnia”.
A Lagarta azul tinha toda a razão no início do filme: aquela dificilmente poderia ser a “verdadeira Alice”. Durante todo o filme, essa teoria é constantemente comprovada – eu, pelo menos, não a reconheci a Alice de Lewis Carroll em nenhum momento da história.

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