Antes de mais, peço desculpa pela
falta de atualidade nesta minha análise, mas não sou daquelas pessoas que estão
sempre dentro do último grito do cinema. Sou uma pirata – prendam-me por favor –
e espero que os filmes tenham suficiente qualidade para os poder sacar e ver em
HD num cantinho do meu sofá.
Vou, portanto, entrar por um
assunto que já muitos analisaram até à exaustão: “Alice in Wonderland”, versão
Tim Burton.
Por acaso fui vê-lo ao cinema na
altura em que saiu. Dinheiro mal gasto: passado meia hora, as cadeiras
confortáveis da sala de cinema já estavam confortáveis demais e comecei a ter
aquele sono que nos primeiros minutos ainda se combate, porque nos concentramos
no dinheiro que gastamos para estar ali. No entanto, acabei por me dar por
vencida e dormi profundamente o resto do filme.
Hoje, porém, decidi dar-lhe uma
nova oportunidade e voltei a vê-lo, desta vez acordada do início ao fim. Mas
com uma diferença: se antes eu nem sequer me lembrava bem da história da Alice
no País das Maravilhas, agora (por razões que não são para aqui chamadas) sou quase
obcecada pelo conto. Leio todas as versões e traduções que me aparecem à frente
e chego a lembrar-me de falas das personagens no meio de conversas que nada têm
a ver com o assunto. Assisti ao filme, portanto, com um sentido crítico muito
mais vincado.
Poderia resumir a minha análise a
esta frase: se o Lewis Carroll tivesse oportunidade de ver o filme, teria dado
trinta voltas na campa com o choque.
Que machadada à história, e que
aproveitamento ao usar o nome “Alice no País das Maravilhas” para um filme que
nada tem a ver com o conto original! Burton pegou na história, imaginou uma
sequela em que a personagem principal é agora uma jovem adulta e transformou a
história num filme tipicamente hollywoodesco, com a Alice no lado dos bonzinhos
em luta contra aos maus da fita.
Há cenas de ação, batalhas
campais, ambientes quase românticos entre o Chapeleiro Louco e Alice. As
provocações das personagens à protagonista e os jogos de palavras desaparecem,
as personagens são adulteradas (a Dormouse, que no original aparece sempre a
dormir e só acorda para dizer uma ou duas frases durante a Tea Party, é agora
um ratinho com voz irritante que intervém durante todo filme e defende que
aquela não é “a Alice certa”), Alice é transformada na heroína que vai salvar o
País das Maravilhas da terrível Rainha Vermelha.
Tudo faz sentido, as peças
encaixam todas no final. Não há pinga de “nonsense”, o espectador não fica com
nada para refletir no fim. Acabam todos felizes para sempre, Alice ganha
coragem para declinar o pedido de casamento do Lord e transforma-se numa mulher de negócios.
Desaparece tudo: o desconcertante
Chapeleiro Louco, as provocações acerca do tempo, com os seus relógios estranhos
que não marcam as horas mas marcam o mês e o ano; a Lagarta azul que pergunta
repetidamente a Alice quem ela é e a deixa sempre confusa; a Duquesa e a
cozinheira, duas personagens cruciais, nem chegam a aparecer – Burton põe o
Coelho a cozinhar na casa da Rainha Branca e a pôr pimenta a mais na comida.
Todo o simbolismo e sentido poético
da obra de Carroll desaparece e transforma-se em mais um filme de aventuras,
numa luta dos bons contra os maus – um autêntico cliché.
A única personagem que merece (tímidos)
aplausos é a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) – afinal, nem sequer existe
uma Rainha Branca na obra de Carroll. Essa, sim, mantém a postura inflexível de
mandar cortar a cabeça a tudo e todos como se estivesse a mandar cortar a
relva. Só aí o País das Maravilhas fica mais ou menos reconhecível. Ainda
assim, uma interpretação que fica bastante aquém da personagem da Disney (1951)
ou da histérica rainha (Miranda Richardson) no filme de Nick Willing (1999).
É um belo filme de
entretenimento, com bonitos cenários, “à Tim Burton”, mas definitivamente não é
a “Alice no País das Maravilhas”. Talvez seja mais uma “Alice no País do Tim
Burton” ou a “Alice no País das Crónicas de Nárnia”.
A Lagarta azul tinha toda a razão
no início do filme: aquela dificilmente poderia ser a “verdadeira Alice”.
Durante todo o filme, essa teoria é constantemente comprovada – eu, pelo menos,
não a reconheci a Alice de Lewis Carroll em nenhum momento da história.

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