Começo a ficar habituada a ouvir falar de défices, cortes, austeridade, crises. Estas palavras já fazem parte do “blá blá blá” quotidiano, ao qual vou deixando de prestar atenção para não ficar (mais) deprimida.
Este mês, porém, veio o “Whiskas Saquetas” desta conversa toda. Fruto das políticas de austeridade e de contenção dos vários governos europeus, o orçamento do programa Erasmus tem um défice de 10 mil milhões de euros e o seu financiamento pode estar em risco.
Ora eu, que já estou habituada a que me mexam no bolso (ou no dos meus pais, que se fossem ao meu só encontravam ar e vento), fiquei mais indignada com esta notícia do que com todas as outras que envolvam Coelhos, Portas e Troikas. Antes que as mentes brilhantes presentes na Comissão Europeia se lembrem de cortar o mal pela raiz e eliminem o programa Erasmus da sua lista de problemas, deixem-me que reflita sobre esta questão (porque as minhas reflexões têm enormes repercussões nas decisões dos eurodeputados, é claro).
Como ex-estudante universitária que teve oportunidade de usufruir do programa Erasmus, acho que posso afirmar que fazer Erasmus é, para grande parte dos estudantes, “A” experiência da sua vida.
Erasmus é palco das grandes e definitivas transformações na vida de um jovem: quem achava que o fogão só servia para pousar as embalagens de lasanha compradas no Pingo Doce acaba por descobrir que dali podem nascer autênticos milagres gastronómicos; quem achava que sem GPS mais cedo ou mais tarde iria parar a uma valeta longínqua sem hipótese de regressar, percebe que, com um simples mapa e muita lata para chatear transeuntes, qualquer cidade se transforma rapidamente na nossa casa; mesmo aqueles cujo inglês era rudimentar e que receavam não conseguir comunicar com a população local, de repente são capazes de falar uma nova língua com uma fluência em que eles próprios não acreditam.
Os tímidos ativam o modo “desenrascanço” e são os primeiros a iniciar uma conversa; os NERDs descobrem que existe vida social à volta deles; os incultos percebem que há mais mundo para além do quadrado de terra onde vivem; quem tem horizontes curtos aprende que os impossíveis tornam-se possíveis desde que queiramos lutar por eles; os “deixa andar” descobrem que a única solução para combater o relógio é viver tudo ao máximo.
Numa perspetiva mais global, 25 anos de Erasmus tornaram realidade a ideia de uma União Europeia que ultrapassa os limites da Economia. No ano passado, o romancista italiano Umberto Eco disse que “o Erasmus criou a primeira geração de jovens europeus”.
É verdade. Esta é uma geração que já não pensa em nascer, viver e morrer no mesmo pedaço de terra. É uma geração sedenta de conhecer, de viver, de pensar diferente. Que em vez de ficar sentada no café a rodear anúncios de emprego nas folhas dos jornais, procura o seu futuro a milhares de quilómetros.
Para nós – jovens que tiveram o privilégio de experimentar esta mobilidade – a Europa é a nossa casa, e os outros continentes são já ali ao lado. O futuro é nosso e de nós depende.
Acredito que, se o Prémio Nobel da Paz atribuído à União Europeia faz algum sentido, esse sentido não vem de uma União meramente económica; o sentido vem de uma União de pessoas que põem as suas culturas e histórias individuais ao serviço de um bem-comum.
O programa Erasmus é um passo gigante no sentido dessa União de pessoas. E se há programa merecedor de atenção por parte da “pacífica” Europa, é este.
A Comissão Europeia admite que as bolsas não cheguem a tempo de financiar o intercâmbio dos estudantes inscritos em Erasmus no segundo semestre do ano letivo (2012/2013). Ora, se me permitem colocar as coisas no extremo: vamos deixar que a mobilidade nos cidadãos europeus seja restrita a “meninos ricos”?
Numa União Económica que muitos consideram praticamente morta, que se salvaguarde o futuro dos jovens. Afinal, é nas nossas mãos que estará o desfecho (ou a continuação) da trama europeia.
Este mês, porém, veio o “Whiskas Saquetas” desta conversa toda. Fruto das políticas de austeridade e de contenção dos vários governos europeus, o orçamento do programa Erasmus tem um défice de 10 mil milhões de euros e o seu financiamento pode estar em risco.
Ora eu, que já estou habituada a que me mexam no bolso (ou no dos meus pais, que se fossem ao meu só encontravam ar e vento), fiquei mais indignada com esta notícia do que com todas as outras que envolvam Coelhos, Portas e Troikas. Antes que as mentes brilhantes presentes na Comissão Europeia se lembrem de cortar o mal pela raiz e eliminem o programa Erasmus da sua lista de problemas, deixem-me que reflita sobre esta questão (porque as minhas reflexões têm enormes repercussões nas decisões dos eurodeputados, é claro).
Como ex-estudante universitária que teve oportunidade de usufruir do programa Erasmus, acho que posso afirmar que fazer Erasmus é, para grande parte dos estudantes, “A” experiência da sua vida.
Erasmus é palco das grandes e definitivas transformações na vida de um jovem: quem achava que o fogão só servia para pousar as embalagens de lasanha compradas no Pingo Doce acaba por descobrir que dali podem nascer autênticos milagres gastronómicos; quem achava que sem GPS mais cedo ou mais tarde iria parar a uma valeta longínqua sem hipótese de regressar, percebe que, com um simples mapa e muita lata para chatear transeuntes, qualquer cidade se transforma rapidamente na nossa casa; mesmo aqueles cujo inglês era rudimentar e que receavam não conseguir comunicar com a população local, de repente são capazes de falar uma nova língua com uma fluência em que eles próprios não acreditam.
Os tímidos ativam o modo “desenrascanço” e são os primeiros a iniciar uma conversa; os NERDs descobrem que existe vida social à volta deles; os incultos percebem que há mais mundo para além do quadrado de terra onde vivem; quem tem horizontes curtos aprende que os impossíveis tornam-se possíveis desde que queiramos lutar por eles; os “deixa andar” descobrem que a única solução para combater o relógio é viver tudo ao máximo.
Numa perspetiva mais global, 25 anos de Erasmus tornaram realidade a ideia de uma União Europeia que ultrapassa os limites da Economia. No ano passado, o romancista italiano Umberto Eco disse que “o Erasmus criou a primeira geração de jovens europeus”.
É verdade. Esta é uma geração que já não pensa em nascer, viver e morrer no mesmo pedaço de terra. É uma geração sedenta de conhecer, de viver, de pensar diferente. Que em vez de ficar sentada no café a rodear anúncios de emprego nas folhas dos jornais, procura o seu futuro a milhares de quilómetros.
Para nós – jovens que tiveram o privilégio de experimentar esta mobilidade – a Europa é a nossa casa, e os outros continentes são já ali ao lado. O futuro é nosso e de nós depende.
Acredito que, se o Prémio Nobel da Paz atribuído à União Europeia faz algum sentido, esse sentido não vem de uma União meramente económica; o sentido vem de uma União de pessoas que põem as suas culturas e histórias individuais ao serviço de um bem-comum.
O programa Erasmus é um passo gigante no sentido dessa União de pessoas. E se há programa merecedor de atenção por parte da “pacífica” Europa, é este.
A Comissão Europeia admite que as bolsas não cheguem a tempo de financiar o intercâmbio dos estudantes inscritos em Erasmus no segundo semestre do ano letivo (2012/2013). Ora, se me permitem colocar as coisas no extremo: vamos deixar que a mobilidade nos cidadãos europeus seja restrita a “meninos ricos”?
Numa União Económica que muitos consideram praticamente morta, que se salvaguarde o futuro dos jovens. Afinal, é nas nossas mãos que estará o desfecho (ou a continuação) da trama europeia.

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