quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A História repete-se

Basta ler Eça de Queirós para perceber que o problema português é quase crónico. Agora a questão que se impõe: porque é que os nossos ilustres deputados, em vez de fazerem licenciaturas por encomenda, não estudam a História do nosso país?



Em 1851, o golpe de Estado do marechal-duque de Saldanha instaurou uma nova etapa política em Portugal - a Regeneração. Esta época  foi caracterizada pelo esforço de desenvolvimento económico e de modernização de Portugal. Depois de 30 anos de lutas civis, iniciou-se um período (aparentemente) próspero. Tentou-se conciliar as diversas facções do Liberalismo e, através de ajuda externa, conseguiu-se chegar um período pacífico em que dois partidos (sem uma diferença ideológica substancial) alternavam no governo.

Rapidamente associamos este período ao "Fontismo", tão repetido nas aulas de História durante o ensino básico e secundário. O ministro Fontes Pereira de Melo, preocupado em recuperar o país do atraso económico e tecnológico, iniciou uma forte política de obras públicas, com a construção de novos meios de comunicação e transporte. Estradas, caminhos-de-ferro, carros eléctricos, pontes, portos, telégrafo e telefone - foi uma alegria de desenvolvimento. Claro que não passava pelas cabeças pensantes dos ministros que talvez tivessem que pagar tudo aquilo que estavam a gastar.

Qual o desfecho deste "equilíbrio" aparente e deste desenvolvimento ilusório? Um país que, a olho nú, era próspero, acabou falido, nas mãos de uma aliança de credores da França e da Inglaterra.

As dívidas ao estrangeiro contraídas para pagar as infra-estruturas agravaram a situação económica. A estes problemas junta-se a fraude, a corrupção do poder político - não soa familiar?

O panorama agrava-se com o predomínio da mentalidade rural sobre a urbana; a indústria moderna não se desenvolveu, a concorrência estrangeira derrubou a fraca indústria portuguesa e nos campos a situação era aflitiva. A emigração aumentou, sobretudo para o Brasil.

Nas artes e nas letras, vivia-se em condições difíceis, com falta de apoios. O Governo aproveitou as suas necessidades para oferecer importantes cargos em troca do "controlo da pena". Surge a chamada "literatura oficial" - muito conveniente, por sinal.

É contra todas estas condições que surge a Geração de 70, um grupo de estudantes da Universidade de Coimbra liderado ideologicamente por Antero de Quental e José Fontana e do qual fizeram parte alguns dos maiores escritores da História da Literatura portuguesa - Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Téofilo Braga e Guerra Junqueiro. 

Este grupo insurge-se contra o estado miserável em que o país se encontrava, contra a decadência da realidade política, cultural e social do país. Mostra o seu descontentamento quanto à corrupção, à fraude, aos exageros do governo. Estes jovens defendem, com prosas invejáveis, uma maior abertura à cultura europeia e uma reforma do País, sobretudo a nível cultural.

Iluminados por ideias inovadoras que assimilaram da cultura europeia, sobretudo da francesa, opuseram-se ao governo monárquico e "absolutista" em vigor. Agitaram consciências, poderes estabelecidos e protagonizaram uma autêntica revolução cultural no nosso País.

Passados tantos anos, parece que a Democracia não aprendeu com a História do nosso país... quando teremos coragem para ser a nova Geração de 70?

"Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte."

Eça de Queirós, in 'Farpas (1872)

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