terça-feira, 23 de outubro de 2012

O “democrático” Portugal


Gostava de lembrar uma coisa de que muita gente se parece esquecer hoje em dia: para haver democracia não basta que o governo diga que é democrático. Também não basta que a população ache que vive numa democracia. É preciso que realmente o poder esteja a cargo do povo ("demo+kratos" = poder do povo).

Por mais voltas que se dê, não há democracia sem imprensa livre. E não há imprensa livre sem meios para ela acontecer. Os jornalistas podem ser muito boas pessoas e querer muito contribuir para uma verdadeira democracia; mas também gostam, vá-se lá perceber, de dar de comer aos filhos.



Muita gente critica, a altos berros, o estado da imprensa portuguesa. Criticam os conteúdos, a forma, os títulos, as imagens. Eu também critico.

O Cristiano Ronaldo nunca teve tanta importância como nos últimos meses. Interessa tudo: o que ele come, onde dorme, como está vestido, onde faz férias com a namorada e se explora bem o corpo dela. O Justin Bieber também deve ter as orelhinhas a arder. No outro dia, fiquei muito feliz por saber que a Christina Aguilera não gosta de usar cuecas.

Mas agora eu pergunto: estão à espera de quê?

Este mês, o (até agora) melhor jornal português levou uma machadada gigante: 36 jornalistas, entre os quais estavam ótimos profissionais, estão na rua; a agência noticiosa responsável por cerca de 70% das notícias que se publicam em Portugal sofreu um corte de 31% no seu orçamento; a Controlinveste, que possui publicações como o “Diário de Notícias”, o “Jornal de Notícias” e a “TSF”, corre o risco de ser comprada por um grupo angolano; a RTP é o que se sabe.

O povo português assustou-se com as medidas de austeridade e já são poucos os que compram jornais (não é que antes das medidas comprassem muito). Os leitores migraram para a Internet, que é gratuita. Mas deixem-me que vos desiluda: a informação de qualidade precisa de dinheiro para subsistir. Não há gente suficientemente altruísta para fazer jornalismo por caridade. Os administradores dos jornais, antes de dar meios aos jornalistas para fazerem reportagens decentes, olham para as contas e vêm se isso lhes vai dar prejuízo. Bom jornalismo dá trabalho e tem que pagar salários.

As “pressões económicas” de que tanto se fala são muito simples: se o Zé Povinho só quer saber do Cristiano Ronaldo, vamos dar-lhe Cristiano Ronaldo para podermos todos comer. É disto que se trata.


Em agosto estive em Angola em Missão. Apesar do pouco tempo que lá passei, consegui perceber, de certa forma, a mentalidade daquele povo e alguns dos seus problemas. Em conversa com alguns angolanos, fiquei a perceber o porquê da maioria esmagadora de José Eduardo dos Santos nas últimas eleições. Não é que a população viva bem e satisfeita com as políticas dele. Não é que todos usufruam da abundância de recursos do país e que estejam a recuperar da guerra com igualdade… mas o povo angolano não confia em mais candidato nenhum. Na verdade, praticamente não ouvem falar de outros candidatos. Quando ouvem, é para cascar neles.

Há uma ideia muito comum - votar noutro partido pode significar a chegada de algo que o povo demorou muito tempo a expulsar: a guerra.

Por curiosidade, comprei o Jornal de Angola por duas vezes durante a minha estadia em Luanda. Mal abri o jornal, assaltou-me uma dúvida: isto é para rir ou para chorar?

Em destaque, estava uma caixa intitulada “Ditos & Feitos Eleitorais”. Não estava assinada – não era uma notícia, ou uma crónica, ou artigo de opinião, ou um editorial. Era uma “coisa” sobre a campanha eleitoral. Citando algumas partes deste texto:

“Pela campanha eleitoral se percebe porque razão os partidos de oposição se queixam da falta de acesso aos órgãos de comunicação social públicos. Eles querem transformar mentiras e calúnias em regras. Pretendem fazer de ofensas graves coisas banais. Imitam na perfeição os ‘jornalistas’ que passam a vida a insultar o Presidente da República, os seus colaboradores mais próximos e os familiares. (…)
O PRS está de cabeça perdida. Afirmar no seu tempo de antena de ontem que o Presidente José Eduardo dos Santos é dono de várias empresas nacionais e internacionais, mais de blocos de petróleo, é descer ao nível do Rafael Marques, que anda a rastejar pelas ruas da amargura. A campanha eleitoral não pode servir para ajustes de contas numa espécie de Carnaval onde vale tudo e ninguém leva a mal.
José Eduardo dos Santos é cabeça de lista do MPLA e nessa qualidade tem os mesmos direitos e deveres de todos os outros. Por isso ninguém pode fazer gravíssimas acusações contra a sua pessoa com base no “ouvi dizer” ou, pior ainda, em matérias publicadas em pasquins infetos que, infelizmente, continuam a poluir a honrada Imprensa Angolana (…).
Depois os tempos de antena da UNITA, CASA-CE e PRS abriram as “comportas” e começaram a despejar porcaria para cima do candidato José Eduardo dos Santos”.

Isto é um texto de um jornal da “democrática” Angola.

Como se vê, não basta haver eleições para fazer viver uma Democracia. É necessário haver quem a fiscalize e quem denuncie os abusos de poder para que o povo seja, efetivamente, soberano.

Para onde caminhamos? Até onde vai a austeridade? Vamos deixar que nos tirem, além do poder de compra, o direito de viver num país livre?

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